Maioria das famílias que não têm comida já comprou fiado

Pesquisa do IBGE revelou que a prática é mais comum do que pedir alimentos a vizinhos ou receber de instituições de caridade

Luciana Nunes Leal, O Estado de S. Paulo

18 Dezembro 2014 | 15h08

RIO - A maior parte das famílias que enfrentaram falta de alimento em 2013 tentou resolver a dificuldade comprando fiado. De acordo com pesquisa sobre segurança alimentar do brasileiro divulgada nesta quinta-feira, 18, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 43,3% das famílias recorreram à medida. A segunda estratégia mais adotada foi pedir alimentos emprestados a outras pessoas. Em menor incidência, houve quem tenha deixado de comprar alimentos supérfluos, tomado dinheiro emprestado, recebido doações ou reduzido o consumo de carnes. 

O suplemento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mostrou que 7,2 milhões de pessoas no País convivem com a fome no País. Elas moram em 2,1 milhões de domicílios onde pelo menos uma pessoa passou um dia inteiro sem comer por falta de dinheiro para comprar comida nos três meses anteriores à pesquisa. 

No termo técnico, essas pessoas vivem em insegurança alimentar grave e são 3,6% do total de 193,9 milhões de moradores residentes em domicílios particulares. Houve avanço em relação a 2009, quando 11,3 milhões de pessoas (5,8% do total) viviam sob ameaça da fome - uma redução de 36%. A pesquisa não revela quantas pessoas efetivamente passam fome no País. Em 2013 o IBGE investigou pela primeira vez a atitude das famílias diante da falta de alimentos e não há comparação com outros anos.

 Presente à divulgação da pesquisa, o secretário de Avaliação e Gestão da Informação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), demógrafo Paulo Jannuzzi, disse que grande parte das pessoas que vivem em insegurança alimentar grave está em áreas de difícil acesso e de extrema pobreza do Norte e Nordeste. 

"Povos isolados da região Norte e de bolsões de pobreza no Nordeste já estão sendo objeto de ações específicas, mas outras ações precisarão ser deflagradas para garantir que tenham acesso a alimentos. A distribuição de cestas básicas é uma das estratégias de que o governo se vale, pela dificuldade de produção nas próprias comunidades. Procuramos identificar população quilombola, índios, ribeirinhos, povos da floresta. É uma estratégia que ainda tem que persistir, com seus desafios, inclusive pelo isolamento de muitas comunidades", afirmou.

Jannuzzi considerou positivo que a maioria das famílias recorra à compra fiado para resolver o problema. Para o secretário, é um indicativo de que elas têm crédito no mercado, graças a programas sociais: "Recorrer à compra fiado revela o sucesso da estratégia do governo brasileiro em fazer a ampliação dos programas de transferência de renda para a população mais pobre. Exatamente no Norte e no Nordeste é que se recorre mais à prática, porque eles têm crédito na praça. O cartão do Bolsa Família garante ao comerciante que aquela dívida será honrada. É revelador que um menor número de famílias peça a vizinhos, como era a estratégia há dez ou quinze anos, ou recorria a entidades religiosas. Muitas dessas famílias preferiram comprar fiado do que deixar de comer carne ou frutas", destacou. 

O representante do MDS fez questão de esclarecer que a informação de que 7,2 milhões de pessoas vivem em insegurança alimentar grave não significa que todas passem fome: "Não é correto dizer que temos sete milhões de pessoas que passam fome. São pessoas residentes em domicílios onde foi reportado que pelo menos um indivíduo deixou de se alimentar propriamente e passou fome nos últimos três meses. Dos 52 milhões que vivem em algum grau de insegurança, 34 milhões vivem em domicílios onde há preocupação de que venha a faltar alimento. Não estão passando fome de modo algum", afirmou o secretário. 

É considerada insegurança alimentar leve a situação em que a família tem preocupação ou incerteza quando à disponibilidade de alimentos no futuro. A insegurança média refere-se à família onde houve redução da quantidade de alimentos entre os adultos.

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