Maioria na Rocinha é a favor de turismo na favela

Passeios turísticos em bailes funks são o que a pesquisadora da Fundação Getulio Vargas Bianca Freire-Medeiros classifica como "reality-tours", programa que atende a um tipo de turista que não se contenta apenas em conhecer cartões-postais, mas quer "calçar os sapatos dos outros", como pregava o sociólogo Max Weber. A pesquisadora constatou que essa mercantilização da pobreza é global. "No imaginário desses turistas, bailes funks e, sobretudo, favelas representam a cultura brasileira tanto quanto futebol e carnaval", diz Bianca, coordenadora de pesquisa sobre Pobreza Turística, que tem por referências a Rocinha e Soweto, na África do Sul. Sete agências oferecem passeios de quatro horas na favela, apresentada equivocadamente como a maior da América Latina - no Rio, é menor que Complexo da Maré e Jacarezinho, segundo o Censo 2000 do IBGE. Há vários tipos de passeio e 99,9% dos clientes são estrangeiros. Eles podem escolher entre percorrer a favela a pé, de jipe ou em mototáxi - motos de moradores que sobem e descem vielas em alta velocidade. Apesar da presença de traficantes na Rocinha e das disputas entre facções, desde 1992, quando esse tipo de turismo começou, até este ano, nunca foi registrado incidente contra turistas. É comum que guias continuem o passeio em meio a operações policiais - e turistas as fotografem, empolgados. "Agências admitem que existe um risco, mas ele é controlável. Dá ao turista um medo gostoso, ele se sente numa montanha-russa." A pesquisadora tentou entender o que moradores pensam dos turistas e qual a motivação destes para fazerem uma visita que brasileiros em geral classificam como safári perigoso. Ela disse ter se surpreendido ao constatar que nem turista nem morador tem essa sensação. Estrangeiros se sentiam melhor que os brasileiros por terem se disposto a "ver o Rio como é", mas alguns ficavam decepcionados porque "a Rocinha não é tão pobre assim". Dos 178 moradores entrevistados, 84% são a favor do turismo na favela. "Eles se divertem à custa dos gringos, aumentam a auto-estima e acham possibilidades de inclusão", diz a pesquisadora, citando o comércio de suvenires artesanais. Ainda assim, a favela está longe de usufruir em pé de igualdade os lucros gerados pelos passeios.

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