Mais crimes e menos internações de jovens

Dados mostram crescimento de 39% de participação de menores [br]em crimes e 24,4% de queda em detenções na Fundação Casa

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

11 de julho de 2008 | 00h00

Enquanto, no Estado de São Paulo, a detenção de maiores de 18 anos cresceu 18% (de 121.267 para 143.191) entre os anos de 2002 e 2007, a participação de adolescentes e crianças em assaltos, seqüestros, roubos, furtos, brigas e danos ao patrimônio saltou 39% (de 9.383 a 13.040). Os dados são da Secretaria da Segurança Pública. Na contramão dessas estatísticas está a queda expressiva de 24,4% na taxa de internação na Fundação Casa (antiga Febem), no mesmo intervalo de tempo. O aparente contra-senso é comemorado pelos estudiosos, pois indica que o regime fechado está sendo encarado como último recurso para os menores infratores.O tráfico de drogas é apontado como o grande responsável pelo impulso na criminalidade juvenil. Em 2006, esse crime correspondia a 14,4% das internações na Fundação Casa. Este ano, pulou para 31%. No ranking de delitos, só perde para o roubo armado (42%).Luana (nome fictício), de 16 anos, encontrou no tráfico um salário mensal de R$ 2 mil, o prestígio entre os amigos e a chance de poder retocar as luzes no cabelo, fazer compras e ir ao cinema sem pedir um tostão para os pais. "Foram quase dois anos vendendo, sem nunca ter parado para pensar nas conseqüências. Paguei um preço muito alto", diz, ao calcular o tempo que está detida na Fundação Casa na zona leste: quatro meses e oito dias. O argumento da garota sustenta a explicação dos especialistas para a explosão de adolescentes na delinqüência. "Nossa sociedade produz menores infratores em escala industrial", avalia a psicóloga da Unifesp Fátima Rigato, coordenadora do Projeto Quixote, que trabalha com ex-internos da fundação. "Não damos outra alternativa para eles alcançarem esses anseios."Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o grupo entre 16 e 24 anos representa 45,5% do total de desempregados na região metropolitana de São Paulo."A juventude está sem horizonte. Cada porta que se fecha no mercado de trabalho abre uma janela para eles serem aliciados pelo crime", observa Antonio Carlos Malheiros, desembargador da Coordenadoria da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça. "Muitos sabem que vão morrer ou serão presos. Mas a qualidade de vida, ainda que momentânea, trazida pelo crime faz com que eles topem o risco."Para a diretora técnica da Fundação, Maria Eli Bruno, a diferença entre os dois gráficos é explicada por uma maior oferta de medidas alternativas à internação. "Existia, antes, uma insegurança em optar por outros programas." Segundo ela, a prestação de serviços à comunidade ganhou "dimensão diferente".

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