Mais um preso por tráfico de órgãos em Recife

O coronel aposentado da Polícia Militar, médico Silvio Boudoux Silva, 54 anos, foi preso hoje por volta das 13h30, na sede da Polícia Federal, logo depois de prestar depoimento sobre um suposto envolvimento com a rede internacional de tráfico de órgãos humanos. A prisão temporária, por cinco dias, foi determinada pela juíza federal Amanda Torres de Lucena e surpreendeu o médico e o seu advogado, José Siqueira.?Esta prisão não tem justificativa?, afirmou Siqueira, frisando que o depoimento foi requerido pelo seu cliente, que afirma ser inocente no caso e fez questão de ir à Polícia Federal ajudar a esclarecer o assunto. Siqueira pretendia entrar com habeas corpus ainda hoje para liberar o médico e antecipou que irá mover uma ação de indenização por danos morais. ?Isto é uma violência contra a honra de um homem de bem e não tem indenização que pague o constrangimento ao qual ele foi submetido?, disse.Boudoux Silva solicitou exames de laboratório para cinco pessoas que negociaram um rim dentro do esquema desbaratado na semana passada pela Polícia Federal, quando 11 pessoas foram presas (um deles liberado por habeas corpus). O médico, que garante que nada sabia sobre o tráfico, vinha sendo investigado pela PF, suspeito de participar da rede que aliciava gente pobre para vender o órgão por preços entre US$ 6 mil e US$ 10 mil, submetendo-se à cirurgia em Durban, na África do Sul, em uma transação estimada em US$ 150 mil por órgão vendido.No sábado, o médico teve dois computadores, agenda de telefone, agenda de consulta, 44 contas telefônicas e mais de 2 mil fichas de pacientes apreendidos pela Polícia Federal em casa e na clínica. No mesmo dia seu advogado protocolou petição para que ele fosse ouvido pela justiça federal e pela PF. ?Não devo, não temo e não quero atrapalhar as investigações?, afirmou Boudoux à imprensa, quando chegou à sede da PF, cerca de uma hora antes de depor e ser preso.Segundo o médico, o seu companheiro de farda, capitão da PM aposentado, I.B.S., apontado como um dos líderes do tráfico, o procurou há cerca de sete ou oito meses, pagou consulta e pediu guias de solicitação de exames para um check-up simples para cinco parentes seus. O médico requereu exames de hemograma, glicose, uréia, creatinina, hepatite B e C, sífilis, sumário de urina e HIV. A natureza dos exames, de acordo com ele, não levava a desconfiar do objetivo de transplante. O advogado divulgou a série de exames necessários para doadores de rim ? assinada por dois especialistas ? para provar a inocência do seu cliente em relação ao caso. São 45 exames, entre os quais quatro dos solicitados pelo médico.A Polícia Federal trabalha no caso há nove meses, a partir de uma denúncia anônima. O oficial da reserva do Exército israelense Gady Tauber Gedalya e o capitão aposentado da PM de Pernambuco, I.B.S, ambos presos, seriam os cabeças da organização.O israelense seria responsável pela articulação com os compradores de rim, a partir da África do Sul, e o capitão coordenaria o aliciamento, preparação e envio dos que aceitavam vender o órgão em Pernambuco. Ao aceitarem o negócio, os candidatos passavam por exames médicos que atestariam boa condição de saúde, tinham seus passaportes tirados e viajavam para Durban. No hospital St. Augustine faziam exames específicos, a cirurgia, recebiam o pagamento e retornavam ao País num prazo médio de um mês.

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