Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

‘Mais uma granada explodiu e o soldado gritou: Me ajuda!’

Depoimento: Samuel Silva, major e integrante da Associação dos ex-combatentes

25 Agosto 2012 | 14h41

Eu não fui voluntário. Era sargento em São Paulo quando fui designado para a o 6.º Regimento de Infantaria, onde servi na companhia de Petrechos Pesados do 3.º Batalhão. Quando cheguei à Itália, não tinha nenhuma experiência de luta em montanha. Nem meus colegas.

Participei do primeiro e do segundo ataques a Monte Castelo. O capitão Aldévio Barbosa de Lemos nos levou à noite para tomar posição na frente do monte. Silêncio total. Ainda me lembro que ele perguntou: "Alguém está com medo?". "Não, senhor", respondemos, mas quem é que não estava? Todo mundo estava, mas ninguém ia falar.

Entramos em posição na frente do Castelo na madrugada de 24 de novembro de 1944. Colocamos metralhadoras em posição, tudo direitinho. Era mais um objetivo a ser conquistado, mas ninguém sabia como o inimigo se havia organizado. Não abrimos trincheira, pois íamos nos deslocar - eu ficava sempre entre as duas metralhadoras em posição.

Ao clarear daquela manhã, nossa artilharia, na retaguarda, rompeu fogo. Vi aquelas explosões. Pareciam o bater de um tambor. Foram tantos tiros... E as granadas passavam com aquele chiado, aquele assobio característico, caindo no monte. Pensei que era só esperar a ordem de avançar, que ali não teria mais nada, que o alemão se havia acabado, que era só subir lá e tomar.

Mas, assim que o inimigo percebeu nossa intenção de tomar a montanha, desfechou um violento bombardeio. Aquilo virou um inferno. Era tiro de artilharia, de morteiro. O da artilharia vem assobiando assim e cai. Dá a impressão de que vai cair nas suas costas. Você fica deitado, encolhido, pensando: "É agora". Mas ele passa e vai adiante.

Quando veio a ordem de "avançar", quem é que foi? Como avançar naquele bombardeio violento? Mas você vai. Até que uma bomba caiu bem próxima, lançando terra, fumaça e fogo para o alto. Aquele cheiro de pólvora, que trazia a morte até nós, deitados, com a metralhadora. E a ordem ainda era avançar, tomar o Monte Castelo, mas não dava.

Mais uma granada explodiu e me deixou sem audição. O soldado da minha metralhadora, Pedro Alves da Silva, grita: "Sargento, me ajuda!" Eu olho, ele estava ferido. Gritei: "Padioleiro, chama o padioleiro". Depois desse dia, nunca mais vi esse soldado. Ele voltou para o Brasil, pois ficou inutilizado. Ganhei a Cruz de Combate de 1.ª Classe. Depois da guerra, às vezes eu sonhava com cidades destruídas, mas não me alterou. Graças a Deus, me senti bem. Só as lembranças dessas cenas que permanecem. Isso a gente não esquece. / EDISON VEIGA e MARCELO GODOY (TEXTO) E EVELSON DE FREITAS (FOTO)

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