Reprodução/Polícia Federal
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Major Carvalho: Ex-PM e dado como morto. Quem é o megatraficante brasileiro preso na Hungria?

Sergio Roberto de Carvalho, ex-oficial da polícia do Mato Grosso do Sul, teve a prisão anunciada nesta terça-feira. Governo brasileiro deverá pedir extradição, mas suspeito também poderá responder a processos em Portugal

Mara Bergamaschi, especial para o Estadão

21 de junho de 2022 | 18h29
Atualizado 22 de junho de 2022 | 14h21

LISBOA – A Polícia Federal (PF), em cooperação internacional com a Interpol da Hungria e a Polícia Judiciária de Portugal, anunciou nesta terça-feira, 21, a prisão do narcotraficante Sérgio Roberto de Carvalho, conhecido no Brasil como “Major Carvalho” por ter sido, até 2018,  oficial da Polícia Militar do Mato Grosso do Sul.

O Ministério da Justiça do Brasil deverá pedir a extradição de “Major Carvalho”, que, entretanto, teria também contas a prestar à Justiça portuguesa. Classificado pela PF como “um dos maiores traficantes internacionais da atualidade”, Major Carvalho é chamado na Europa de “Pablo Escobar brasileiro”.

Segundo a imprensa lisboeta, ele deverá ser acusado por lavagem de dinheiro em Portugal, após a Polícia Judiciária ter encontrado no final do ano passado 12 milhões de euros dentro de uma van que estaria estacionada num endereço de Lisboa ligado ao traficante.

Procurada pelo Estadão para confirmar sua participação nas investigações e a intenção de processar e punir Major Carvalho, a Polícia Judiciária não se manifestou. Já a assessoria de imprensa do Ministério Público de Portugal disse desconhecer o caso.

A Polícia Federal brasileira informou que a prisão decorreu das investigações desenvolvidas no âmbito da Operação Enterprise, deflagrada em 2020, que apreendeu R$ 500 milhões da rede criminosa da qual Major Carvalho era o líder. Foram expedidos mandados de prisão para ele e seus comparsas, mas eles, já processados anteriormente por tráfico de drogas, estavam há anos em fuga.

“No momento, a Polícia Federal adota as providências formais decorrentes da captura após as diligências policiais que culminaram nessa importante prisão.”, informou a instituição.

Em fevereiro, a imprensa espanhola publicou um verdadeiro enredo cinematográfico sobre o “Pablo Escobar brasileiro”, que tinha várias identidades falsas.

Usando o nome de Paul Wouter, ele vivia em Marbella e foi alvo de um pedido de condenação de 13 anos por parte da promotoria, pois foi ligado a um carregamento de 1700 quilos de cocaína encontrados na Galizia. Mas o tribunal recebeu um atestado de óbito datado de 29 de agosto de 2020, que afirmava que Paul Wouter havia morrido de covid-19.

Foram as autoridades brasileiras, segundo a imprensa espanhola, que alertaram a Justiça que as impressões digitais de Wouter coincidiam com as de Carvalho – e que acreditavam que o óbito era falso. Os investigadores julgavam  ainda que ele mantinha uma base em Portugal – como se verificou – e em Dubai ou Ucrânia – mas ele acabou sendo preso na Hungria.

No Brasil, sobretudo no Mato Grosso do Sul, Major Carvalho é conhecido. Em 2018, depois de longo processo administrativo e jurídico, o governador Reinaldo Azambuja (PSDB) conseguiu expulsá-lo da Polícia Militar devido à condenação na Justiça Federal por tráfico de drogas. Mesmo assim, ele continuava tentando receber  mais de R$ 1 milhão em aposentadorias, valor que o governo diz não ter pago.

Em nota enviada ao Estadão, o governo do MS informou que Sérgio Roberto de Carvalho ingressou na Polícia Militar em 1980 e em 1996 pediu aposentadoria, que foi suspensa após a expulsão. 

“O major entrou com recurso no Tribunal de Justiça do e MS e conseguiu reverter a decisão. Diante disso, pediu o pagamento do período em que a aposentadoria ficou suspensa. A ação ainda tramita na Justiça, mas como ele  nunca se apresentou,  a aposentadoria foi cancelada”, explicou o governo estadual. Ele foi preso pela primeira no Brasil em 1997, quando já estava na reserva.

A reportagem não conseguiu localizar nenhum defensor constituído do Major Carvalho para comentários sobre as acusações apresentadas pela polícia.

'Réu de alta periculosidade'

Desde 2003, quando ainda estava preso no quartel da PM em Campo Grande (MS),  Major Carvalho foi até a última instância da Justiça para tentar se livrar das acusações. Naquela época, o  Supremo Tribunal Federal (STF) indeferiu, por unanimidade, pedido de Habeas Corpus (HC) em seu favor, quando ele havia  sido condenado a 15 anos.

Nesse processo, foi acusado, segundo os arquivos do STF,  de “ser chefe de uma organização flagrada com 237 quilos de cocaína no município de Rio Verde (MS)”. O então ministro relator, Nelson Jobim, disse que faltaram elementos para comprovar o que a defesa de Sérgio Roberto de Carvalho pleiteava - e o HC foi indeferido por unanimidade da Segunda Turma.

Há registro de outro habeas corpus negado no STF, em 2011,  pelo então ministro Marco Aurélio de Mello, desta vez em processo   sobre exploração de jogos de azar. Major Carvalho, que chegou a ficar em liberdade condicional entre 2005 e 2009, queria ser libertado, como ocorrera a outro réu envolvido no mesmo processo.

O pedido foi negado por que ele foi considerado “réu de alta periculosidade” devido à condenação anterior por tráfico. Com o mesmo entendimento, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) também já havia negado o benefício.

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