Mal-entendido deu origem a projetos em Heliópolis

Até 2003, assim como boa parte dos habitantes dos bairros centrais de São Paulo, o arquiteto Ruy Ohtake nunca havia andado por uma favela. Nessa época, foi entrevistado por uma revista, que lhe perguntou quais eram os lugares mais bonitos e os mais feios de São Paulo. Deu uma resposta longa, que acabou distorcida. Na publicação, saiu que ele achava Heliópolis, bairro da zona sul onde vivem mais de 120 mil pessoas, o lugar mais feio da cidade.Nos dias que se seguiram, choveu telefonemas, principalmente de lideranças comunitárias que o convidavam para tornar Heliópolis mais bonita. Desde então, as visitas se tornaram mensais e o arquiteto desenvolveu diferentes projetos no bairro. Um deles, iniciado em maio de 2004, foi o embrião da idéia que acabou sendo abraçada e ampliada pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo (CDHU). "Nas minhas visitas a Heliópolis, sempre me impressionou a solidariedade entre os habitantes e a vida que existe nas ruas", diz Ohtake. Naquele ano, o arquiteto e urbanista desenvolveu em Heliópolis um projeto para a pintura de 270 casas, que depois de pronta os moradores apelidaram de "caminito". Para o arquiteto, as diferentes cores no projeto representam o dinamismo das lutas urbanas e a solidariedade entre os pobres. Idéia que voltou a ser usada no Jardim Pantanal, na zona leste. A partir da primeira experiência, Ohtake decidiu ampliar a opção de cores para escolha dos moradores, aumentar o treinamento dos pintores e pintar a casa inteira em vez de se restringir à fachada. "A integração entre os vizinhos foi um dos aspectos que mais me chamou a atenção nessas andanças que tenho feito. No apartamento onde moro, não conheço os vizinhos e no máximo os cumprimento nos elevadores ou na garagem", afirma.Além da pintura das casas, atualmente Ohtake desenvolve oito projetos em Heliópolis, que antes de serem implantados foram discutidos com a população, como uma biblioteca comunitária e espaços para capacitação profissional. No projeto do Centro Cultural, Ohtake levou em conta a efervescência das ruas de Heliópolis e construiu um pátio aberto, voltado para a rua. "Se fosse na região central, seria diferente", diz.

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