WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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‘Malandro’ em pernas de pau desfila com multidão: é o carnaval ‘vetado’ no Rio

Blocos desfilam pela cidade mesmo sem aval da Prefeitura; agremiações maiores acataram orientação e não foram às ruas

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2022 | 18h54

RIO - Um folião usando pernas de pau e fantasiado de malandro desfilou pelo Centro do Rio de Janeiro nesta sexta-feira, 22, ao som de sucessos de Chico Buarque. O personagem da boemia carioca dos primeiros anos do século passado, marcante na obra do compositor, era um dos destaques de A Banda, um dos blocos que se apresentaram para os cariocas. Sem permissão e sem proibição para desfilar, os foliões enfrentaram dificuldades provocadas pela inexistência de apoio oficial – por exemplo, falta de banheiros – para se divertir.

A Banda marcou a concentração às 7 h na Rua do Mercado, uma das principais vias da região da Praça XV, que concentra boa parte do casario antigo do Centro. O cortejo circulou pelas ruas até chegar à Praça Mauá, em frente ao Museu de Arte do Rio (MAR). Os músicos executaram sucessos como “A Banda”, “Apesar de você” e “Morena da Angola”, entre outros.

Também no Centro, desfilou de manhã o Docinhos Carinhosos, que se define nas redes sociais como um “bloco psicodélico”. Para o início da noite, estava marcada a apresentação, sem desfile, do bloco Superbacana, que homenageia o movimento tropicalista. Seu repertório inclui composições de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé.

Os desfiles dos blocos do Rio ocorrem desde quarta-feira, 20, sem autorização nem apoio da prefeitura. Não há, porém, repressão aos foliões. O cenário é semelhante ao do carnaval verdadeiro, no fim de fevereiro e início de março passados. Na época, por causa do recrudescimento da pandemia de covid-19, não houve festejos oficiais na data marcada no calendário para a festa. Mesmo assim, os foliões tomaram as ruas do Rio em cortejos sem autorização.

Ao cancelar os festejos nas datas oficiais, a Prefeitura carioca os transferiu para o  feriadão de Tiradentes. Só que apenas os desfiles das escolas de samba, no Sambódromo e na Rua Intendente Magalhães, na zona oeste, foram autorizados e tiveram apoio das autoridades. Os blocos ficaram de fora e  não receberam nenhum apoio.

Representantes dessas agremiações criticaram e denunciaram a falta de apoio e o tratamento que receberem, tido como desigual. O prefeito Eduardo Paes (PSD) chegou a fazer um apelo para que os blocos não desfilassem. Muitas agremiações maiores e mais tradicionais seguiram a orientação. Consideraram que, sem apoio do município, as condições de segurança e conforto estariam comprometidas.

Procurada, a Secretaria municipal de Ordem Pública e da Defesa Civil (Seop) não respondeu às perguntas sobre a quantidade de blocos que desfilaram e sobre eventuais incidentes durante os cortejos. Reforçou, por escrito, o mesmo posicionamento de quinta-feira, 21. Nele,  informava que trabalha “em toda a cidade com o objetivo de garantir o ordenamento urbano, fluidez do trânsito e auxílio na segurança, em especial, nos desfiles do Sambódromo e Intendente de Magalhães, praias, pontos turísticos, rodoviária e aeroportos”. "Toda a cidade está sendo monitorada pela Prefeitura e, se necessário, ações serão realizadas para garantir o melhor funcionamento do município", diz a nota.

Em carnavais regulares, a maioria dos blocos do Rio desfila com trajetos demarcados pela Prefeitura. Há apoio oficial para a instalação de banheiros químicos, reforço nas equipes de limpeza da estatal Comlurb e cadastramento de vendedores ambulantes de bebida. Em geral, há patrocínio de empresas. Nos últimos anos, entre 400 e 500 agremiações desfilaram pelas ruas da cidade a cada carnaval.

MULTAS

Órgãos da Prefeitura do Rio aplicaram 337 multas de trânsito, fiscalizaram 128 vendedores ambulantes, fizeram 297 atendimentos médicos e recolheram 36 toneladas de lixo, entre outras ações, no entorno do Sambódromo. O trabalho foi feito entre a noite de quinta-feira, 21, e a madrugada desta sexta-feira, 22, na segunda noite de desfiles neste carnaval fora de época. Nas noites de quarta, 20, e quinta, 21, desfilaram as escolas de samba da Série Ouro, de  acesso ao Grupo Especial, que reúne as principais agremiações do carnaval carioca. Na nesta sexta-feira, 22, começam os desfiles do Grupo Especial.

Segundo boletim divulgado nesta sexta, 22, os sete postos médicos montados no Sambódromo fizeram dez transferências para unidades da rede municipal de saúde. Desde a noite de quarta-feira, 20, foram 514 atendimentos, incluindo o de Raquel Antunes da Silva, de 11 anos. A menina foi imprensada entre um poste e um carro alegórico na dispersão de um dos desfiles, no entorno do Sambódromo. Ela foi operada, teve uma perna amputada mas não resistiu aos ferimentos. Morreu no início da tarde desta sexta-feira, 22.

O boletim da Prefeitura informa que cerca de 500 agentes da Secretaria municipal de Ordem Pública e da Defesa Civil (Seop) e da Guarda Municipal atuam no entorno do Sambódromo durante os desfiles do carnaval fora de época. O trabalho inclui auxiliar as escolas de samba “no deslocamento dos carros alegóricos com foco na segurança viária e na diminuição de impactos no trânsito”.

Raquel foi ferida após subir num carro alegórico da escola de samba Em Cima da Hora. Foi na saída do Sambódromo, na rua Frei Caneca, num momento em que se distanciou da mãe. Durante o deslocamento para deixar a área dos desfiles, o veículo passou em um trecho estreito, batendo no poste.

Sem mencionar o incidente, o boletim da Prefeitura informa que “foram aplicadas 337 multas, após flagrantes de infrações de trânsito, e quatro veículos foram rebocados”.

“Equipes da Coordenadoria de Controle Urbano (CCU) fiscalizaram 128 ambulantes com objetivo de coibir o comércio sem autorização e de itens proibidos. Ao todo, 114 garrafas de vidro, que possuem venda proibida em comércio ambulante, foram apreendidas. Em dois dias, 218 ambulantes foram fiscalizados e mais de 400 itens apreendidos”, diz um trecho do boletim.

Os sete postos médicos instalados pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) do Rio no sambódromo fizeram 96 atendimentos médicos das 19 horas às 22 horas desta sexta-feira, 22, primeira noite de desfiles das escolas de samba do Grupo Especial, a elite do carnaval carioca. Um paciente foi transferido para o Hospital Municipal Miguel Couto, no Leblon, zona sul da capital, informou a SMS, sem dar detalhes sobre a gravidade do caso.

Nas duas primeiras noites de desfiles – das escolas de samba da Série Ouro, espécie de segunda divisão do carnaval, que dá acesso ao Grupo Especial –, foram 514 atendimentos. Aí está incluído o caso de Raquel Antunes da Silva, de 11 anos, que foi prensada entre um poste e um carro alegórico na dispersão de um dos desfiles, no entorno do sambódromo. A menina chegou a ser operada, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu no início da tarde desta sexta-feira, 22.

Segundo a SMS, o esquema de assistência do sambódromo conta com 71 profissionais de plantão, “entre médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, e estrutura para atender os principais casos de emergência”. São 16 ambulâncias para fazer as transferências para unidades mais preparadas da rede municipal de saúde, nos casos mais graves.

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