Malandros e boêmios no último dia

A Complexo B levou o clima da Lapa para a a passarela; outras grifes apostaram em moda leve e ?usável?

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

O Fashion Rio terminou em alto astral, graças ao desfile da Complexo B. As estrelas foram a travesti Patrícia Araújo, que se apresentou de casaco de pele sobre microvestido de paetês, e o ator veterano Milton Gonçalves, que encarnou o malandro carioca, de terno e chapéu brancos. O tema era a Lapa e sua diversidade - o mesmo dessa edição do Fashion Rio. O estilista Beto Neves, que colocou isopores com bebidas na passarela, criou estampas que faziam alusão à região boêmia do Rio. E também bermudas, calças e casacos em xadrez colorido, repetido nos bonés. Os modelos usavam acessórios dourados bem chamativos, no estilo bicheiro.Na trilha sonora, samba e hip-hop, algum dos ritmos da Lapa. O desfile foi dos mais aplaudidos de toda a edição deste Fashion Rio.No último dia, moda bem "usável" cruzou a passarela. Se estamos nos trópicos e o inverno - pelo menos o carioca - é ameno, por que não sair por aí com um vestidinho, tendo apenas um xale de filé de renda por cima? Foi o que propôs a grife pernambucana Francisca, que estreou bem na semana de moda carioca, ontem à tarde. A estilista Virgínia Falcão, que lançou a marca 4 anos atrás, fez uma coleção com inspiração étnica, ou melhor, no "novo étnico".Traduzindo: bonitas estampas de faces de mulheres negras, desenhos de henna indiana e sandálias com tiras cobertas por pelo de bode.A primeira a passar foi a mineira Pure que, pensando em pergaminhos, usou bastante tricô em vestidos, calças, casacos e cachecóis. Stefania, de Brasília, foi buscar inspiração no arquiteto catalão Gaudí. O resultado: sobreposições, tendo como base uma silhueta anos 40.A AL.G., do baiano Alexandre Guimarães, fez sua coleção "Sucata", inspirada nos "aglomerados de cidade, automóveis e pessoas". Reciclou fraldas de bebê, que viraram vestidos de tricô, e fez vestidos do tactel de bermudões de surfista.O carioca Halleck aplicou "conceitualmente" o processo de desenvolvimento de metais na indústria. Desfilou peças masculinas feitas a partir de materiais como nylon, acetato e couro. Em seguida, veio a Tchibi, de São Paulo, com uma série de malhas e lãs com cara de serem gostosas de usar. Por fim, com o tema "I love life", R. Grove, outra do Rio, que salpicou corações em suas roupas masculinas, em bordados de tricôs e em broches divertidos.No fim da tarde, Ivan Aguilar apresentou uma coleção elegante e - mais uma - usável. O estilista é famoso pelo corte e caimento irrepreensíveis de seus ternos, que apareceram com toques modernos: calças mais curtas, e em tecidos como o shantung. O inverno do estilista tem gosto de chocolate, café e vinho. A estilista Kylza Ribas fez do seu inverno 2009 um templo para experimentações. Todas as suas peças praticamente eram estampadas . Os tecidos foram pintados à mão, depois queimados, amassados e fotografados. Por fim, o resultado foi estampado digitalmente em novas peças. Rostos de mestres da pintura, como Leonardo da Vinci, Salvador Dalí e Van Gogh apareceram nas roupas. Depois do longo processo de fabricação, não eram detectáveis. Os vestidos de Kylza são tão compridos que as modelos tiveram de levantá-los para não cair - uma delas chegou a tropeçar.O tempo é de incertezas, e a estilista baiana Márcia Ganem quis traduzir isso em roupas de outono-inverno. Intitulada "Abrigo", sua coleção tem muitas tramas desestruturadas e assimétricas. Márcia há anos trabalha com fibra de poliamida e, a partir dela, criou mantas, vestidos, saias e blusas, em tons como cobre, brancos, cinza, vinho e verdes. Bordados de artesãs da Associação de Bordadeiras da 25 de Junho, cooperativa baiana, fizeram a diferença no bonito desfile, finalizado com as modelos voltando à passarela unidas por uma longa trama presa na altura da cabeça.

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