''Mandam o problema para a periferia''

ONGs alegam que moradores de rua habitam região para ter acesso à comida e encontrar trabalhos informais

Vitor Hugo Brandalise e Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

30 de abril de 2009 | 00h00

Em qualquer dia da semana, nas ruas principais do centro histórico de São Paulo, é por volta das 20h30 que a real dimensão do problema se revela - é quando são formadas, no Pátio do Colégio, na Praça da Sé, no Largo São Francisco, filas imensas de moradores de rua, aguardando o início da distribuição de comida por representantes de entidades. "Hoje tem salsicha! Fazia tempo!", exclama José Vieira da Rocha, de 49 anos, morador da Praça da Sé desde 2001. "Vou aproveitar, é a única (refeição) do dia", ele diz, segurando o marmitex, empurrado pelo próximo da fila. Enquanto a multidão se dispersa, uma figura passa correndo, próximo à Catedral. Carrega entre os braços a cabeça e as tripas de um peixe. "Arranjei no Mercadão", revela Erivaldo Soares, de 38 anos, ao lavar o bicho com água de um dos chafarizes da Praça da Sé. "Lá no Mercadão sempre tem refeição."Para quem vive nas ruas, é esse o tipo de oportunidade que um local como o centro de São Paulo oferece - comida, além de trabalhos informais. "É com isso tudo que a Secretaria ( de Assistência Social) pretende acabar, com o fechamento dos albergues de São Francisco (no Glicério) e do Jacareí (na Bela Vista)", afirma Anderson Miranda, coordenador do Movimento Nacional dos Moradores de Rua. "Estão tentando limpar o centro, empurrar o problema para a periferia." Segundo a Assessoria de Imprensa da Assistência Social, o aumento na população de rua é uma situação transitória, de adaptação à nova política enquanto mais convênios são fechados.Para as entidades, contudo, além do fechamento dos albergues, o fim do programa de atendimento espontâneo a moradores de rua do governo contribuiu para engrossar o número de pessoas vivendo em áreas já saturadas do centro. Atualmente, os atendimentos são realizados somente quando há o encaminhamento por oficiais da Guarda Civil Metropolitana (GCM) ou se há denúncia da população. Além disso, as entidades reclamam da redução da Central de Atendimento Permanente de Emergência (Cape), que teve seu número de veículos de atendimento à população de rua reduzido de 44 Kombis para 20.Quem vive nas ruas já sentiu a diferença. "Dizem que só há vagas nos albergues da periferia, que não tem mais como dormir no centro", afirma o morador de rua Adriano da Silva Pereira, de 28 anos, há seis meses vivendo na Rua Anchieta, próximo ao Pátio do Colégio. "Mas quem quer ir para São Mateus, ou para São Miguel? Nos acordam às 6 da manhã e vamos para a rua, temos de voltar ao centro andando", relata o morador, que costumava dormir no Albergue São Francisco, no Glicério.GUARDA CIVILOutra crítica das entidades diz respeito à atuação da GCM, que passou a realizar abordagens a moradores de rua, conforme autoriza um decreto de 25 de fevereiro deste ano. Na noite de anteontem, o Estado acompanhou a atuação de sete GCMs, em serviço na região central. Segundo os guardas, a orientação é para que seja realizada a "limpeza e melhoria visual nas regiões mais visitadas da cidade, para liberação da revitalização do centro". A secretária de Assistência Social nega ter dado orientação à GCM."Minha tarefa é empurrá-los para fora da minha inspetoria", chegou a dizer um inspetor da corporação. O resultado dessa política, segundo as entidades, é que, enquanto ruas próximas à Praça da Sé, Largo São Francisco e Pátio do Colégio se transformam em camas coletivas, outros locais historicamente utilizados pelos moradores de rua, como o Vale do Anhangabaú e a Praça do Patriarca, mais próximos à Prefeitura, hoje praticamente não apresentam o problema.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.