Maníaco nega crime e MP quer condenar os 3 jovens libertados

Policiais descartaram tortura, mas entraram em contradição; delegado diz que réus são do PCC

Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

19 de novembro de 2008 | 00h00

O Ministério Público Estadual (MPE) decidiu pedir a condenação dos três rapazes acusados de matar Vanessa Batista de Freitas, de 22 anos, em agosto de 2006. Renato Correia de Brito, de 24 anos, William César de Brito Silva, de 28, e Wagner Conceição da Silva, de 25, começaram a ser julgados ontem no Tribunal do Júri de Guarulhos, na Grande São Paulo. Eles foram presos logo após o crime, mas acabaram soltos em setembro deste ano, depois que Leandro Basílio Rodrigues, apelidado pela polícia de Maníaco de Guarulhos, confessou o homicídio. Na ocasião, diante das suspeitas de que os três haviam sido torturados para confessar o assassinato, o então promotor do caso, Marcelo Alexandre de Oliveira, se manifestou pela soltura dos envolvidos. A previsão na noite de ontem era de que os trabalhos só sejam concluídos na quinta-feira. Assista vídeo com o depoimento O depoimento mais aguardado do dia era o de Rodrigues. Diante das frágeis provas do processo, a banca de acusação, composta pelo promotor Levy Emanuel Magno e pelo assistente de acusação Eugênio Malavasi, esperava que ele repetisse perante os sete jurados o que havia dito em seu último interrogatório à Justiça. "Esse crime foi cometido por pelo menos duas pessoas. Como o maníaco diz que não praticou ato sexual e a vítima está toda arrebentada? Essa primeira versão dele não é crível", disse o promotor.Dito e feito. Respondendo às perguntas do juiz Leandro Jorge Bittencourt Cano, Rodrigues voltou a dizer que confessou sob tortura. "Colocaram uma sacola no meu rosto, me bateram e fizeram ameaças", reafirmou. Os autores da suposta agressão, segundo ele, seriam o delegado Jackson César Batista e os investigadores Diniz (na verdade, ele estaria se referindo a Ademir) e Dantas, do Setor de Homicídios de Guarulhos. Ele não soube dizer porque os policiais teriam lhe atribuído um crime que já estava solucionado.À noite, o delegado Batista foi convocado para dar sua versão sobre a confissão de Rodrigues. Negou ter torturado o preso e chegou a discutir com o promotor, que fez críticas à investigação. "Ser engenheiro de obra pronta é fácil, difícil é construir", atacou. "Há interesses desde o início desse processo. É muito fácil hoje arrumar desculpas para encobrir erros", concluiu, referindo-se ao MPE e à Justiça, que mantiveram presos por mais de dois anos três supostos inocentes.TORTURAAo longo de todo o primeiro dia de julgamento, o tema tortura foi recorrente de ambos os lados. As três primeiras testemunhas ouvidas foram policiais: dois PMs que atenderam à ocorrência no dia em que o cadáver de Vanessa foi localizado e o delegado responsável pela prisão em flagrante dos três rapazes. Tanto o sargento Richardson Alcântara quanto o soldado Ezequiel Mota negaram ter forçado os acusados a admitirem o assassinato. Voltaram a dizer, por exemplo, que Renato ofereceu R$ 20 mil para não ser preso. Mas caíram em contradição quando um dos advogados de defesa perguntou quem os recepcionou na chegada à casa de Renato - Alcântara disse ter sido o pai (na verdade, o padrasto) de Renato e Mota afirmou ter sido a mulher do acusado. Os defensores também exploraram a quilometragem da viatura em que os PMs estavam. De acordo com os relatos dos policiais, a distância entre a casa dos rapazes e o 1º DP de Guarulhos seria de 20 quilômetros. A perícia, no entanto, revelou que, naquele dia, o carro rodou 92 quilômetros. A diferença, segundo eles, se deu porque a viatura voltou ao batalhão para levar um aluno sargento.Já o delegado Paulo Roberto Poli Martins abriu seu depoimento dizendo que não queria falar na presença dos réus, pois os três seriam integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). "Eles foram direto para o CDP (Centro de Detenção Provisória) 1 de Guarulhos e não para o 2, onde costumam ficar criminosos primários e acusados de crimes sexuais", afirmou. Questionado pelo magistrado se havia notado algum sinal de agressão aos acusados, Martins foi enfático: "Não havia nenhum sinal, o menor que fosse. Os três estavam 100% íntegros." Martins deu detalhes sobre o primeiro depoimento prestado pelos três rapazes na delegacia e criticou duramente a postura da primeira advogada dos acusados, Kátia Soares dos Reis Cardoso, que esteve na delegacia no dia em que os rapazes foram presos e acompanhou os depoimentos. "Só na pronúncia (quando os réus são informados de que vão a júri popular), sete meses depois, é que ela disse ter visto alguém de joelhos sendo agredido."A advogada reiterou ter visto William ser agredido. Dois integrantes da seccional Guarulhos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) foram ouvidos como testemunhas e confirmaram que a advogada procurou a entidade, mas não formalizou sua queixa.O júri será retomado hoje, às 9 horas. Nove testemunhas de defesa ainda estavam inscritas para serem ouvidas. Só depois disso terá início a fase dos debates entre defesa e acusação. CRONOLOGIA19/8/2006: Renato Correia de Brito, Willian César de Brito Silva e Wagner Conceição da Silva são presos, acusados da morte de Vanessa Batista de Freitas, na noite anterior. Eles teriam confessado sob tortura29/8/2008: Leandro Basílio Rodrigues, chamado pela polícia de Maníaco de Guarulhos, confessa o assassinato de Vanessa. Renato, Willian e Wagner são soltos cinco dias depois18/9/2008: Rodrigues diz ao juiz Jayme Garcia dos Santos que confessou a morte de Vanessa sob tortura. Família da vítima crê que Renato, Willian e Wagner são culpados

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