Manifestantes cariocas ameaçam denunciar Cabral à ONU

Governador do Rio disse que não gosta de 'protestinho' e sim de 'gente que arregaça as mangas e trabalha'

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2008 | 20h02

Na véspera dos 60 anos da Declaração dos Direitos Humanos, a Organização Não Governamental Rio de Paz ameaçou denunciar o governador do Rio, Sergio Cabral, à Organização das Nações Unidas (ONU). "Se o governo estadual não apresentar um plano de redução das mortes violentas até fevereiro, vamos fincar cruzes em frente à sede da ONU, em Nova York, e denunciá-lo", disse o diretor do Rio de Paz, Antônio Carlos Costa. Nesta terça-feira, 9, em protesto contra os nove mil desaparecimentos durante a gestão Cabral, a ONG reproduziu nas areias da Praia de Copacabana os métodos de execuções usados por traficantes e milícias nas favelas cariocas.   Presos a pneus, os militantes lembravam as vítimas do tráfico de drogas cujos corpos são queimados no método apelidado de "microondas". Os cemitérios clandestinos dos grupos paramilitares foram representados com manequins em valas abertas na areia. Os ativistas anunciaram que no sábado vão espalhar 16 mil cocos pelas areias de Copacabana representando os crânios das vítimas de mortes violentas e desaparecimentos que a ONG projeta nos últimos dois anos. "Estes números não são de um país, mas de uma cidade e durante o um regime democrático", observou o comerciante francês Pierre Equinet, de 51 anos, voluntário do Rio de Paz, que ficou três horas sob o sol forte dentro do "microondas" para protestar.   Ao ser informado do protesto, o governador do Rio, Sérgio Cabral, criticou os militantes durante uma visita ao Morro Dona Marta, em Botafogo, zona sul do Rio, que permanece ocupado pela polícia. "Eu não gosto de oba-oba e desse negócio de protestinho. Chama o Rio de Paz para vir trabalhar aqui. Gosto de gente que arregaça as mangas e trabalha", declarou o governador.   Pneus onde vítimas do tráfico são mortas queimadas; método é conhecido como 'microondas'    O impacto visual dos cenários das execuções impressionaram os turistas e os cariocas. "Na Venezuela, há a questão dos desaparecidos políticos durante a ditadura, mas os números daqui são impressionantes. A diferença é que no meu país os corpos dos desaparecidos estão sendo encontrados", disse a engenheira Waleska Izquierdo, de 28 anos. Nascido e criado no Morro do Chapadão, na Pavuna, zona norte, o estudante de Direito Michel Carolino, de 22, disse que as execuções são comuns nas favelas. "Nos dias de hoje, infelizmente, as pessoas nas comunidades acham estas mortes normais e a sociedade do asfalto também não se importa, porque ninguém faz nada", disse.

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