Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Manifestantes vão às ruas do País após morte de Marielle e Anderson

Protestos ocorrem em SP, Recife, Rio e Belo Horizonte; em Salvador, crime foi a principal pauta do Fórum Social Mundial

O Estado de S.Paulo

15 Março 2018 | 15h36
Atualizado 15 Março 2018 | 20h31

BELO HORIZONTE, RECIFE, RIO, SALVADOR E SÃO PAULO - Movimentos sociais e grupos ligados ao PSOL promoveram nesta quinta-feira, 15, uma série de manifestações em razão da morte da vereadora Marielle Franco (PSOL), de 38 anos, e do motorista Anderson Pedro Gomes, de 39, na noite desta quarta-feira, 14.

+++ Diante de morte de Marielle, deputados europeus pedem suspensão de negociação com Mercosul

Rio

No Rio, milhares de manifestantes se concentraram diante do Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), no fim da tarde desta quinta-feira, em repúdio ao assassinato da vereadora e do motorista. Na convocação para o ato “Marcha contra o genocídio negro! SOMOS Marielle Franco!”, nas redes sociais, os manifestantes foram chamados a se reunir em frente à Alerj a partir das 17 horas.

+++ Homenagem na Câmara à vereadora morta vira ato contra intervenção e governo Temer

Durante o ato, com discursos de lideranças comunitárias, foram repetidos coros pedindo o fim da Polícia Militar. Ao contrário do que ocorre em quase todas as passeatas, nesta não houve o acompanhamento de nenhum grupo de policiais militares.

+++ Contra impunidade, ONU pede ação sobre assassinato de Marielle

O protesto seguiu pela Avenida Rio Branco até a praça da Cinelândia, em frente à Câmara Municipal, onde os manifestantes chegaram por volta das 19h15. Até as 19h30, não havia registro de nenhum tumulto.

Além da PM, foram alvo dos manifestantes o presidente Michel Temer (MDB), o governador Luiz Fernando Pezão (MDB) e o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB). A intervenção federal na segurança do Rio foi constantemente criticada.

Mais cedo, durante o velório de Marielle e Anderson na Câmara, milhares de pessoas já haviam se aglomerado no entorno do prédio.

São Paulo

Milhares de pessoas foram à Avenida Paulista, na região central de São Paulo, que foi fechada no sentido Consolação por volta das 17h30. O grupo se concentrou em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), desde em torno das 16 horas, para protestar contra os assassinatos. "Marielle, presente!", gritaram os manifestantes.

Organizadores estimaram que entre 3 mil e 5 mil pessoas tenham participado do protesto na capital paulista. O ato assumiu um tom de defesa do feminismo e das minorias. Entre os presentes, há muitas placas também contra a violência policial e militantes do PSOL, com bandeiras que representam coletivos feministas, integrantes do sindicato dos professores do Estado, a Apeoesp, entre outros apoiadores. Policiais militares acompanham o ato a distância.

"Este ato é para mostrar que não vamos desistir da luta de Marielle. Não vão calar a nossa voz. A luta da Marielle se faz presente", disse um dos manifestantes, no microfone.

Um caminhão de som do sindicato municipal de professores da rede pública paulistana se uniu ao protesto. A maior parte dos manifestantes já havia se dispersado antes da chegada do veículo, mas a avenida seguia bloqueada em ambos os sentidos na altura do Masp.

Para a psicóloga Luana dos Santos Alves Silva, de 24 anos, a importância do ato é mostrar que as pessoas não estão ficando paradas "diante dessa tentativa brutal de silenciar os que lutam contra as injustiças contra os pobres e negros no Brasil".

"Marielle representava o que há de mais forte em nós, e ela vai inspirar para sempre", afirmou Luana.

Salvador

Em Salvador, cerca de 2 mil pessoas entre estudantes, professores, representantes partidários ligados à esquerda e participantes do Fórum Social Mundial realizaram na manhã desta quinta-feira um ato de protesto na Universidade Federal da Bahia (UFBA). 

Com gritos contra a intervenção federal e pela luta dos negros no Brasil, os manifestantes seguiram pelas ruas com cartazes e faixas.

A representante da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa (Amped) Maria Luiza Süsssekind cobrou investigação isenta sobre o crime. "Precisam investigar o que aconteceu com clareza. Estamos aqui por Marielle e pelo motorista."

O professor da UFBA Francisco Pereira destacou a militância da parlamentar. "Não se pode sair matando pessoas que lutam pelas causas justas. Que têm coragem de expor o lado em que estão."

Os organizadores do ato são representantes do grupo Povo Sem Medo, criado em 2016.

"Que fique claro que não estamos aqui somente por Marielle, mas pelos negros lutadores e batalhadores, pelas perdas dos trabalhadores neste regime, pelo motorista também assassinado e contra essa farsa da intervenção no Rio de Janeiro", afirmou Vitor Aicau, membro do movimento Povo sem Medo.

Também participaram da passeata a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e o vereador de Salvador Hilton Coelho (PSOL).

Belo Horizonte

Cerca de 5 mil pessoas participaram em Belo Horizonte de protesto contra o assassinato da vereadora e do motorista. A estimativa é da presidente do PSOL mineiro, Maria da Consolação. A Polícia Militar não divulgou número de pessoas no ato. A manifestação aconteceu na Praça da Estação, região central da cidade, em frente à sede da legenda.

O convite para o ato colocado pelo PSOL de Minas Gerais no Facebook tinha, no meio da tarde, a confirmação de presença de 13,8 mil pessoas. A chamada postada na rede social para a manifestação, batizada de "BH Contra o Genocídio Negro. Marielle Presente!", cobrava apuração da morte da vereadora.

"Hoje nossa esperança se despedaça um pouco. Uma mulher, negra, mãe e defensora da igualdade, nascida na Maré, combativa e corajosa vereadora da bancada feminista do PSOL, foi tomada", diz o texto. "Não vamos nos calar diante de tamanha brutalidade, tampouco mediremos esforços para honrar as batalhas que a companheira travou em vida. Queremos imediata apuração dos fatos. Queremos a verdade!", segue o texto do convite.

A presidente do PSOL-MG, Maria da Consolação, afirmou que o assassinato de Marielle pode ter relação com as denúncias que a parlamentar do Rio de Janeiro vinha fazendo sobre o que chamou de "militarização da vida cotidiana". "É preciso um debate profundo no País sobre isso."

Maria acredita que a colega de partido tenha sido executada.

Segundo a presidente da Central Única dos Trabalhadores de Minas Gerais (CUT-MG), Beatriz Cerqueira, o assassinato da vereadora deve ser visto como um ataque a toda a sociedade e, principalmente, contra as mulheres.

"Mostra como é difícil ser mulher defensora dos direitos humanos num parlamento no Brasil. Marielle foi vítima de uma execução. Todas as informações até agora levam a essa conclusão", afirmou a sindicalista.

Já o professor de Sociologia Euclides Guimarães afirmou que o Brasil vive um "regime de exceção cada vez mais militarizado". "Estão começando a praticar atentado paramilitar de extrema direita."

Segundo ele, o assassinato "é o crime de natureza política mais bárbaro no Brasil desde Chico Mendes".

Recife

No Recife, um ato promovido por movimentos sociais, entidades ligadas ao movimento feminista e pelo Diretório Estadual do PSOL, reuniu uma pequena multidão. A mobilização teve início em frente à Câmara Municipal do Recife, na região central da cidade. 

Com faixas e cartazes, os manifestantes gritaram palavras de ordem e músicas contra a violência. O ato foi acompanhado de longe por policiais militares, mas a PM não se pronunciou sobre a estimativa de público. Segundo o vereador do Recife, Ivan Moraes Filho (PSOL), cerca de 2 mil pessoas estavam presentes.

No final da tarde, o cortejo seguiu em direção ao Palácio do Campo das Princesas, sede do governo do Estado. 

Entre os manifestantes, muitos pediam, através de faixas, adesivos e cartazes, a saída do presidente da República, Michel Temer (MDB), do poder. Também havia muitas faixas e cartazes pedindo o fim da intervenção federal no Rio de Janeiro. 

Parlamentares e lideranças de vários partidos de esquerda participaram do ato. Presidente nacional do PC do B, a deputada federal pernambucana Luciana Santos estava bastante emocionada.

"Estamos vivendo, aqui no Brasil, um ambiente de intolerância, ódio, e quando você concretiza uma atitude de força como foi um impeachment sem crime de responsabilidade, você daí abre a caixa de Pandora e absurdos como esse começam a acontecer", afirmou Luciana. 

Para a militante feminista Isadora Cintra, que integra um dos coletivos que organizou o ato, a melhor forma que a população tem de pressionar as autoridades constituídas para que o crime não fique impune é através das manifestações.

"Não podemos deixar Marielle e Anderson caírem no esquecimento. Estamos falando de vidas humanas. De gente que estava lutando para proteger e salvar outras vidas. Que estavam denunciando morte, tortura, corrupção", enfatizou. "Levar nossa indignação à rua e fazer o mundo todo saber da verdade, o que estão fazendo no Rio, no Brasil, em Pernambuco é dever de todos nós." / DANIELA AMORIM, FÁBIO GRELLET E LUIZ FERNANDO TOLEDO, O ESTADO DE S. PAULO, CLEUSA DUARTE, LEONARDO AUGUSTO E MONICA BERNARDES, ESPECIAIS PARA O ESTADO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.