Mapeados, 32 saraus de SP estarão em guia a ser lançado neste mês

Levantamento privilegiou grupos que se reúnem com periodicidade fixa - maioria fica na região central da capital

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

03 Agosto 2009 | 00h00

A cidade de concreto também faz poesia. Sob esse lema, a organização Poiesis - mesma instituição que administra a Casa das Rosas e o Museu da Língua Portuguesa, entre outros locais - organizou e prepara o lançamento, previsto para este mês, de um inédito folheto com os "pontos de poesia" da Grande São Paulo. O levantamento resulta de um trabalho de quatro meses do poeta Rui Mascarenhas. "Surpreendi-me muito com a diversidade temática dos saraus. Cada comunidade tende a transformar em poesia suas diferentes realidades", afirma. "O importante é que todos os grupos estimulam a produção literária." O folheto, que será distribuído gratuitamente na Casa das Rosas e nos endereços onde ocorrem os saraus - a tiragem inicial é de 5 mil exemplares -, traz uma relação de 32 eventos com periodicidade fixa. E localiza em um mapa. É nítido, por exemplo, que a maior parte está concentrada na região central. Por outro lado, aparecem muitas iniciativas em bairros de periferia, como Cidade Tiradentes, Itaim Paulista e São Miguel Paulista, na zona leste. O mapa ainda inclui grupos das cidades vizinhas de Suzano, Guarulhos, Carapicuíba, Embu, Pedreira, Diadema e Santo André. Em geral, os saraus são frequentados por aficionados por poesia que moram na região onde ocorrem - ou têm alguma ligação artística com os organizadores. Com o mapa publicado, espera-se que surjam, entretanto, mais figuras como o poeta Renato Palmares, de 44 anos, apelidado de "peregrino da poesia". Não é para menos: desde 2005, é assíduo frequentador de vários saraus diferentes. "Chego a participar de quatro em uma semana." Palmares mora no Campo Limpo, zona sul. Ali perto, costuma comparecer ao Sarau do Binho - que ocorre sempre às segundas - e ao Sarau da Cooperifa - às quartas. Quinta-feira é dia de enfrentar ônibus, trem e metrô para, após uma "viagem" de 2 horas, participar do Elo da Corrente, em Pirituba, zona norte. Palmares também é figurinha fácil no Sarau Poesia na Brasa - quinzenalmente, aos sábados, na Vila Brasilândia, zona norte. "O mais importante é o movimento em si", empolga-se ele, que trabalha como produtor cultural e já teve textos publicados em quatro coletâneas de poesia. "Tenho visto muita molecada que faz poemas e se orgulha da própria existência." O Sarau da Cooperifa, desde 2001, é um bom exemplo de como a poesia pode mexer com os moradores da periferia. Transformou-se em um evento que costuma atrair 200 pessoas a cada edição, sempre no Bar do Zé Batidão, na Chácara Santana, em M? Boi Mirim. "Quem lê enxerga melhor", resume o poeta e organizador, Sérgio Vaz.Em abril, o sarau promoveu, pelo terceiro ano consecutivo, o "Poesia no Ar", em que todos os poetas foram convidados a colocar poemas dentro de 500 balões de gás hélio. Como eles dizem, "para ninguém ficar sem poesia na cidade, o sarau chega via aérea na casa das pessoas".E se a poesia pode vir, assim, por acaso, por que os saraus precisam nascer de forma planejada? O Sarau Elo da Corrente, de Pirituba, começou como evento de lançamento de um livro - Desencontros, do poeta Michel da Silva Ceriaco, em 2007. "Queríamos fazer uma festa, acabou virando um evento semanal de confraternização do bairro", diz a mulher, a poetisa Rachel Almeida da Silva, uma das organizadoras. PARA TODOS OS GOSTOSO Sarau Diverso Politeama, em Pinheiros, começou como um clubinho fechado, em 2006. "A gente se reunia na casa de amigos e apresentava as criações", conta a poetisa Barbara Leite. No ano seguinte, a ideia se expandiu e o encontro passou a ser público, em um bar. E engana-se quem pensa que só a poesia tem espaço nesses eventos. "Chegou lá é só fazer a festa: poesia, música, teatro, dança. Pretendemos estimular a comunicação entre todas as artes." Do clubinho fechado para hoje, a principal mudança foram os endereços. De lá para cá, o sarau transferiu-se cinco vezes de local. "Somos o sarau mais itinerante que existe", brinca Barbara. Nem tanto. Exemplo de nomadismo é o Sarau Portátil, outra iniciativa do gênero, que une literatura, música, cinema e teatro em bares e praças aleatoriamente.Em dezembro, nasceu o ZAP: Zona Autônoma da Palavra, evento que ocorre uma vez por mês na Pompeia. A noite começa com a projeção de filmes, seguida pelo "microfone aberto" - em que poetas podem declamar ou ler textos. Mais tarde, o ponto alto: uma batalha poética, em que os participantes são julgados por uma comissão formada na hora. Qualquer pessoa pode participar. "É só chegar e se inscrever", diz a poetisa Roberta Estrela D?Alva, uma das organizadoras. O campeão da noite leva um kit com livros, CDs e DVDs. Mas não são só novas - e moderninhas - iniciativas que roubam a cena poética paulistana. Exemplo de tradição é a Casa do Poeta Lampião de Gás de São Paulo, que promove saraus desde 1948. Atualmente, os encontros acontecem quinzenalmente, no auditório da Associação Paulista de Imprensa, na Liberdade. "Provavelmente somos o sarau, em atividade, mais antigo da cidade", acredita a vice-presidente da entidade, poetisa Analice Feitoza de Lima.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.