Máquina de ministérios é usada para rebater críticas de Serra

Sucessão. Menos de três horas após a entrevista do candidato tucano ao Jornal Nacional, da TV Globo, o governo reagiu às declarações do presidenciável por meio de nota divulgada pela pasta da Saúde; o Ministério dos Transportes também se manifestou

Lígia Formenti, Rui Nogueira BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2010 | 00h00

Carona. Dilma com Ideli Salvati em Florianópolis: reação crítica de que não se governa 'na garupa'  

 

 

 

O governo usou a máquina dos Ministérios da Saúde e dos Transportes para reagir às declarações do candidato tucano à Presidência, José Serra, ao Jornal Nacional da TV Globo, na quarta-feira. A mobilização para contestar dados citados pelo tucano pôs órgãos públicos na campanha, numa operação para ajudar a candidata governista, Dilma Rousseff (PT).

Ao falar no Jornal Nacional sobre a situação da saúde, Serra, que foi ministro do setor, no governo Fernando Henrique Cardoso, apontou queda do número de cirurgias eletivas, bem como dos mutirões. Disse também que "muita prevenção que se fazia acabou ficando para trás".

Na mesma noite, às 22h36, menos de duas horas depois da participação do tucano no telejornal da Globo, o Ministério da Saúde distribuiu nota oficial para contestar seus dados. A nota foi ainda replicada quatro vezes - depois da primeira divulgação, foi reeditada às 22h42 e às 22h50, de quarta, e às 10h28 de ontem.

Na nota oficial, o ministério afirmou que a informação do tucano não era verdadeira. Sustentou que os mutirões não terminaram, mas foram substituídos pela Política Nacional de Cirurgias Eletivas, criada em 2004. Além das cirurgias para catarata, varizes, próstata e retinoplastia - atendidas no formato criado na gestão Serra -, outros 86 procedimentos teriam sido contemplados na estratégia.

Com a mudança, o número de cirurgias eletivas - que podem ser programadas - teria saltado de 1,5 milhão para 2 milhões, de acordo com a nota divulgada pelo ministério. Mas um relatório do próprio ministério mostra que o programa criado pelo governo Lula para substituir os mutirões da saúde não atingiu o objetivo esperado. No documento, de março, fica claro que efetivamente houve queda nos resultados, como Serra apontara.

O trabalho analisa 17 tipos de cirurgias feitas ao longo da década e mostra que em 2002, quando termina gestão Serra, foram feitos 484.887 procedimentos. Em 2009, esse número caiu para 457.816. A nota do ministério informa que o número de cirurgias de catarata atualmente é maior. No período de sete anos, porém, o aumento foi de apenas 3%: de 309.981 para 319.796 cirurgias.

O ministério afirmou que a resposta rápida às críticas do tucano é reflexo da responsabilidade de zelar pela correta informação. Por meio da assessoria, informou ser seu dever corrigir informações erradas, algo que, de acordo com ministério, é feito de forma rotineira.

Transportes. O Ministério dos Transportes foi outra pasta mobilizada para contestar as críticas de Serra ao desempenho do governo federal em relação ao estado das rodovias sob sua responsabilidade. No documento, o ministério desfia dados sobre suas estradas e aponta a aplicação dos recursos da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), o imposto sobre combustíveis.

No Jornal Nacional, o candidato do PSDB declarara que as concessões do governo federal não estão funcionando. "A Régis Bittencourt continua sendo a Rodovia da Morte e a Fernão Dias está fechada", afirmou o tucano.

Segundo o Ministério dos Transportes, dos 400 quilômetros da Régis Bittencourt (BR-116), que liga São Paulo a Curitiba, apenas 30 quilômetros, no trecho da Serra do Cafezal (SP), não foram duplicados. O órgão atribui o atraso na obra às "dificuldades para obtenção do licenciamento ambiental", mas afirma que a duplicação desse trecho estará concluída em 2012.

Quanto à Fernão Dias (BR-381), que liga São Paulo a Belo Horizonte, o Ministério dos Transportes afirma que ela "não está fechada". Estaria apenas com "desvio de tráfego" em um único ponto de seus 560 quilômetros, "provocado pelo deslizamento de encosta, em consequência de fortes chuvas". Acrescenta ainda que o tráfego foi liberado em junho.

Investimentos. O ministério também respondeu à acusação de que apenas uma parcela mínima dos recursos arrecadados com a Cide foi aplicada. Segundo o órgão, o valor correto da arrecadação, de 2003 a junho de 2010, foi de R$ 54 bilhões. Serra afirmou que teria sido R$ 65 bilhões. Desse total, a cota da União corresponderia a R$ 41,9 bilhões - o restante foi transferido a Estados e Municípios. O Ministério dos Transportes enfatiza que apenas os investimentos em rodovias no período 2003-2010, independentemente da Cide, somam R$ 34,5 bilhões. / COLABOROU ANDREA JUBÉ VIANNA

Petista diz que tucano teme ligação com FHC

A candidata à Presidência do PT, Dilma Rousseff, cumpriu agenda ontem em Florianópolis. Na Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), a petista respondeu à provocação de seu principal adversário, o tucano José Serra, feita na noite de quarta-feira durante entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo. O tucano havia dito que "não há presidente que possa governar na garupa" - numa crítica indireta à sua rival que tem o total apoio de Lula na campanha presidencial.

Ontem, Dilma rebateu, afirmando que Serra tem medo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Meu adversário morre de medo do Lula na minha campanha por tudo que o governo federal trouxe para o povo brasileiro. Ele não pode atrelar sua imagem à do governo FHC", rechaçou. / JULIO CASTRO, ESPECIAL PARA O ESTADO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.