''''Marco de 1 milhão de mortes é inaceitável''''

Tim Cahill: especialista em Brasil da Anistia Internacional[br]Ativista é cético quanto a queda de mortes em SP e critica violência da polícia, citando tortura de garoto em Bauru

Entrevista com

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

O especialista em Brasil da Anistia Internacional - organização de direitos humanos -, Tim Cahill, nega-se a comparar a violência no País a guerra. Mas diz que "um milhão de mortes em 30 anos é inaceitável".Como o senhor vê a violência no Brasil?A violência urbana é uma realidade em todo o mundo, mas no Brasil atingiu proporções extremas graças a décadas de negligência do poder público diante de um abismo de desigualdade social e uma política de segurança pública baseada em repressão.A violência aqui pode ser comparada à de países em conflito?Só em números. No mais, não é possível paralelo. O conflito no Brasil não tem base nacionalista, territorial, étnica ou política. Do ponto de vista do direito internacional, se classificarmos a violência no Brasil como guerra, incluiremos a situação no País num conceito em que há aceitação, por parte da comunidade mundial, de que pode haver mortes, como no Iraque e Afeganistão. E não acreditamos que a questão do Brasil justifique essa aceitação. Um milhão de mortes em 30 anos é simplesmente inaceitável.A queda de homicídios em São Paulo desde 1999, segundo a Secretaria de Segurança, puxa os índices do Brasil para baixo. Isso não é positivo?Embora queira acreditar em tendência de redução, vejo os números com descrédito. Os dados são controversos e não há estudo que explique as causas. Só quando pudermos entender a queda dos homicídios poderemos comemorar. Por enquanto, o que temos são projetos entre comunidade, polícia, ONGs e governos com bons resultados, como em Diadema.No mais, a situação continua frágil.Por quê?O Estado precisa reformar mecanismos de segurança que mantêm atitudes arbitrárias como a morte, por policiais, de um jovem de 15 anos em Bauru. O sistema carcerário continua sem controle externo. E a Anistia, a receber denúncias de graves violações, inclusive na Fundação Casa. A qualquer momento esse caldeirão explode, como em 2006 com os ataques do Primeiro Comando da Capital.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.