Marcola alega ter negociado com governo antes da onda de violência

Em depoimento de 4 horas e 13 minutos à CPI do Tráfico de Armas, Marcos Willian Herbas Camacho, o Marcola, revelou aos deputados que, antes da negociação que pôs fim às rebeliões nos presídios e à onda de ataques às forças de segurança do Estado, entre os dias 12 e 19 de maio, ele negociou com o então secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, antes do início da onda de violência, atribuída à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).Os deputados se reuniram com o detento durante cinco horas no Centro de Readaptação Penitenciária (CRP) de Presidente Bernardes, em 8 de junho, porém a íntegra do depoimento só foi divulgada neste mês. Marcola disse que, na véspera dos ataques de maio, estava revoltado "como todos os outros presos" com a situação a que foram submetidos presídios - regime de segurança muito rigoroso, suspensão da visita do Dia das Mães. "Por toda a experiência da Secretaria, ela saberia que haveria essa retaliação, ou não essa exatamente, que isso ninguém esperava, mas algum tipo de retaliação". AcordosMarcola tinha sido levado à sede do Departamento Estadual de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), em São Paulo, na sexta-feira, 12 de maio, para ser interrogado pelo delegado Godofredo Bittencourt e explicou a situação dos presos. Segundo Marcola, ele reivindicou ao delegado que a lei fosse cumprida. "O Dr. Bittencourt falou isso pra mim: ´Concordo com você e vou passar isso pro Nagashi´. Aí ele foi, ligou pro Nagashi, e o Nagashi falou simplesmente que não, que não iria fazer concessão nenhuma, que não tava ali pra negociar". Criticando o ex-secretário por ser intransigente, Marcola disse que Nagashi "foi intransigente ao máximo e falou que a gente ia continuar sem cobertor - quem não tinha -, sem visita, sem banho de sol, um mês trancado, sem justificativa, sem nada. Quer dizer, arevolta foi generalizada. Presos nessas condições, com certas lideranças muito fortes dentro da penitenciária e telefone celular... É isso". Na negociação do dia 14, que pôs fim à onda de violência, Marcola teria dito ao coronel da PM, presente no encontro, que "o que eu posso fazer para parar é o que eu já fiz no Deic. É comunicar o meu ponto de vista, ou seja, dar uma manta, alimentação e a visita do preso que teve esse direito. Eu me proponho a ir lá, em Venceslau, que é de onde parte a situação, conversar com os presos para que eles se comuniquem e parem com essa situação". Segundo o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), que integra a comissão, Marcola contou que recebeu a visita do coronel da PM Aílton Araújo Brandão, chefe do Comando de Policiamento do Interior da Região de Presidente Prudente, e da advogada Iracema Vasciaveo. Nas palavras do detento, o coronel teria dito: "Já morreu muita gente de cá e de lá. Acho que é hora da gente parar". Marcola teria respondido que "concordo com o senhor, só que, para que a gente pare, tem que dar dignidade ao preso". Em seguida, a advogada teria tirado um celular do bolso e entregue na mão de Marcola. O preso então respondeu: "A senhora não me conhece mesmo. Não falo em celular". Para ordenar o fim dos ataques, Marcola teria solicitado a presença de Luiz Henrique Fernandes, o LH, integrante do PCC. Foi LH quem ligou para um preso e determinou o fim da violência.ArmasQuestionado sobre a entrada de armas no País, Marcola disse que o tráfico acontece "obviamente" pela fronteira. "O Brasil tem fronteiras enormes e dificilmente eles vão conseguir policiar o tempo todo ela toda. Então isso vai dar margem pra entrada não só de armas, mas de tudo que se imaginar. É óbvio, muitosimples também". Marcola disse que é muito fácil conseguir armamento pesado no Brasil. "Qualquer favela tem", disse. Presos e as facçõesSobre a ação de organizações criminosas dentro dos presídios, Marcola explicou aos deputados que existe uma regra de convívio entre os presos, com o objetivo de manter a disciplina "independente de PCC, de organização criminosa ou não". Marcola citou a proibição do consumo do crack e do estupro de presos dentro dos presídios para exemplificar que a organização dá regras de convívio para os presos. "Existem regras estabelecidas dentro do sistema penitenciário para que haja uma boa convivência entre os presos, disse Marcola. "Quem não cumpre essas regras, de alguma forma, ele vai ser justiçado".Questionado sobre os motivos que fazem um egresso do sistema prisional continuar colaborando com os presos, Marcola disse que essas pessoas "estavam lá e sabem como é, no sentido de dar condições financeiras, para que essas pessoas que estão lá, de alguma forma, subsistam de uma forma mais digna do que se não existisse essa ajuda". Isso, de acordo com Marcola, sem custos. "Ninguém paga dentro da prisão pra nada, acabou isso. Houve uma época que parece que pagavam 20 reais alguns presos que são ligados a uma determinada organização. Eram 20 reais de caixinha, mensalmente, pra que pudessem ter advogados, assistência jurídica, muitas vezes... Só que isso foi abolido. Dentro do sistema penitenciário ninguém dá um real pra ninguém". Apesar disso, reportagem publicada hoje no Estado mostra que o PCC cobra uma contribuição mensal dos presos (leia ao lado).DesacatoEm pelo menos dois momentos durante o depoimento, Marcola teria ofendido os deputados. Em resposta a Pimenta, sobre apesar de dizerem buscar uma vida melhor e não impedirem a morte de inocentes, o detento foi direto. "Eu não acho um traficante melhor do que um deputado nem um deputado melhor do que um traficante de armas. Pra mim é tudo igual". Depois, quando o deputado Moroni Torgan diz que, para ele, "o PCC existe para explorar os coitados dos presos que têm que sair para rua e trabalhar para eles", Marcola respondeu comparando isso ao trabalho dos deputados. "E o que que os Deputados fazem? Não roubam também? Roubam para c..., meu. (...) Que moral tem algum Deputado para vir gritar na minha cara?". Depoimentos sigilososMarcola negou que teve acesso aos depoimentos sigilosos dos delegados paulistas Godofredo Bittencourt Filho e Ruy Ferraz à CPI. Os advogados Maria Cristina Rachado e Sérgio Wesley da Cunha contendo são acusados de terem comprado um CD com a gravação dos depoimentos, que teria sido levado a Marcola. "Tu acreditas que a história de que os presos tiveram acesso àquele CD...", perguntou o deputado Pimenta. "Mentira", disse Marcola.

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