Marginal: motoboy gasta o dobro do tempo na via local

Motociclistas farão protesto contra restrição amanhã

Felipe Werneck, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2008 | 00h00

Dois motoboys fizeram ontem uma "corrida" desleal, a pedido do Estado. O trajeto foi da Ponte do Limão, na zona norte, até o Cebolão, na zona oeste. Alexsander Grigolato, de 27 anos, seguiu pela Marginal do Tietê, por volta das 18h30, e Anderson Macedo Santos, de 25, foi pela faixa local. Santos fez o percurso de ida e volta em uma hora, quase o dobro do tempo gasto por Grigolato (34 minutos). Anteontem, a Prefeitura anunciou que vai proibir, a partir do dia 11, a circulação de motos nas vias expressas das Marginais, onde o limite é de 90 km/h - nas locais, é de 70 km/h.Santos é motoboy há 4 anos. Para ele, a decisão "não vai melhorar nada, só aumentar os acidentes". "Vai ter briga entre motoqueiro, motorista de lotação e caminhoneiro na local, vai ficar embaçado." Ele estudou até o ensino fundamental e disse tirar R$ 800 por mês fazendo entregas. "Nossa profissão é discriminada pela sociedade e pela própria polícia. Todo mundo acha que motoqueiro é ladrão."Grigolato trabalha há 5 anos como motoboy. Para ele, que ganha cerca de R$ 700, deveria haver "educação no trânsito, e não proibição". "A gente paga o IPVA pra andar livremente. Tem muita perseguição. Fazemos um serviço que é muito útil pros empresários, que vão poder continuar andando por onde quiserem. Ninguém luta por nós, a não ser a gente mesmo. Somos pouco valorizados, o jeito é reivindicar", disse.ACIDENTE E PROTESTOSOntem, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Motociclistas de São Paulo (Sindimoto), Aldemir Martins, o Alemão, que organiza um protesto da categoria para o dia 22, sofreu um acidente e foi levado para o Hospital das Clínicas com suspeita de fratura no pé direito.Alemão disse que bateu em um carro que dava marcha à ré na Frei Caneca. "Meu pé ficou preso no motor. E ainda disseram que eu era o culpado", declarou. "Eles tratam a gente como lixo. O cara do Corolla nem desceu. Mas mantive a calma. Se resolvo discutir, e os motoboys vão para cima, ia dar confusão." Além da proibição de motos nas marginais, o Sindimoto é contra o aumento do seguro obrigatório de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre (DPVAT), a criação de novas motovias e a proposta de cobrança de pedágio na Via Dutra, além de acusar a Polícia Militar de "perseguir os caronas". "Vamos fazer uma coisa organizada e pacífica. A outra manifestação (prevista para amanhã e organizada pelo Sindicato dos Mensageiros Autônomos) é coisa de gente sem preparo, bucha de canhão. Eles fazem uma baderna que só estigmatiza a nossa classe."Não existe unidade na categoria. "Esse Alemão gosta muito é de falar", disse Ernane Pastore, da Associação dos Mensageiros, Motociclistas e Mototáxis de São Paulo. Apesar disso, ele apóia a manifestação de sexta-feira e programou mais dois protestos, um "acampamento na frente da casa do presidente Lula", a partir do dia 1º, e o Moto na Faixa, uma espécie de "operação-padrão" dos motociclistas, a partir de 18 de fevereiro. "O pessoal vai para as ruas, e cada moto vai ocupar o espaço de um carro no horário de pico para aumentar o congestionamento e forçar o governo. Aí vamos ver. Eles têm que parar de perseguir trabalhador", disse Pastore. A frota da cidade é de cerca de 650 mil motos, 9,1% dos veículos registrados em circulação. Nos horários de pico, passam pelas Marginais de 1,7 mil a 2 mil motos.

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