Mariana reivindica tombamento pela Unesco

Como vizinha Ouro Preto, cidade quer título de patrimônio da humanidade

Eduardo Kattah, O Estadao de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 00h00

Primeira cidade de Minas, Mariana, a 115 quilômetros de Belo Horizonte, cansou de ser coadjuvante da vizinha Ouro Preto e se mobiliza para obter o reconhecimento formal da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) como patrimônio da humanidade. O município, de 311 anos e 52 mil habitantes, passa por um amplo processo de capacitação, principalmente por meio de intervenções urbanas e obras visando à recuperação de seu sítio histórico e adequação às exigências da organização. "Pretendemos no máximo até abril do ano que vem estarmos com toda a documentação pronta para inscrever a cidade", disse Fátima Guido, coordenadora em Mariana do Programa Monumenta, do Ministério da Cultura. Em Minas, além de Ouro Preto, Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, detém o título da Unesco. A antiga Vila Rica foi a primeira cidade brasileira a ser reconhecida como patrimônio mundial, em 1980. Já a terra de Xica da Silva e Juscelino Kubitschek conquistou o tombamento no fim da década de 1990. Em Congonhas, o tombamento restringe-se ao Santuário de Bom Jesus do Matosinhos - que abriga a obra-prima de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Embora reconheçam que o Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco hoje é muito mais rigoroso na seleção dos sítios, as autoridades de Mariana confiam nos requisitos da cidade. Além do casario e das seculares igrejas barrocas - possui cerca de 800 imóveis tombados -, ela se destaca por ser guardiã de um dos mais importantes acervos de música antiga colonial brasileira e música sacra manuscrita da América Latina. Medida considerada fundamental para a obtenção do título, o Plano Diretor de Mariana foi aprovado no fim de 2003 e norteia as obras previstas e em execução na cidade. Mas, a exemplo de outros municípios históricos mineiros, a regulamentação tardia deu margem a uma ocupação urbana desordenada de suas encostas. O descaso com o patrimônio resultou em populosos bairros periféricos, surgidos a partir de loteamentos e doações de casas, construídas para servirem de "moeda eleitoral", observa Fátima Guido. Na busca do título internacional, o prefeito de Mariana, Celso Cota (PMDB), ex-presidente da associação das cidades históricas mineiras, promete 100% do tratamento de água e esgoto até o final de 2008. A partir do próximo ano, a grade das 32 escolas municipais passará a contar com disciplinas de educação patrimonial e educação ambiental. "Aí você começa a despertar a preservação", ressalta Cota. Conforme o Plano Diretor, a cidade deverá crescer de forma planejada para a área norte. Para recuperar a harmonia urbanística e arquitetônica, a prefeitura encomendou um ousado projeto que prevê, entre outras ações, o desmanche de um enorme ginásio poliesportivo - que destoa em meio à paisagem colonial e dará lugar a um centro de convenções. Entre outras medidas previstas estão a instalação de uma rede elétrica subterrânea em pelo menos 80% do centro histórico e a criação de uma entrada turística na cidade, até mesmo com intervenções nas fachadas de imóveis particulares. O objetivo é resgatar a característica colonial das moradias. Nos últimos anos, foram restaurados muitos casarões e espaços públicos. Outras obras estão em fase de execução, sendo a mais importante delas a revitalização da Praça da Sé, no entorno da Catedral da Sé - a mais suntuosa igreja da cidade, construída na primeira metade do século 18 e que abriga trabalhos de Aleijadinho e de Manoel da Costa Ataíde. MÚSICAO acervo musical de Mariana também é alvo de avaliação na Unesco. A cidade abriga manuscritos e cerca de 2 mil partituras de música colonial dos séculos 18 e 19, um conjunto que não possui similar no País. Como parte da coleção instrumental, destaca-se um raríssimo exemplar do órgão Arp Schnitger, construído em 1701 e único em funcionamento fora da Europa. O órgão e os documentos fazem parte do acervo do Museu da Música, cujo espaço físico foi inaugurado em julho. O diretor-executivo da Fundação Cultural e Educacional da Arquidiocese de Mariana (Fundarq) e vice-prefeito da cidade, Roque Camêllo, observa que o trabalho dos pesquisadores já pode ser considerado uma referência na musicologia brasileira e internacional. Em 2003, o acervo documental foi encaminhado para avaliação da Unesco e conseqüente inscrição no Programa Memória do Mundo como bem imaterial. "Isso deverá ficar decidido no próximo ano", disse Camêllo. "O Brasil junto a Unesco só tem um bem (imaterial), que é o registro fotográfico de D. Pedro II, quando ele visitou Jerusalém e o Egito." Guardadas em arquivos climatizados estão partituras originais raras de autores brasileiros como José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746-1805) e João de Deus de Castro Lobo (1794-1832). Todo acervo passou por um processo de restauração iniciado em 2001 e está em processo de digitalização. Com base nos documentos, um projeto premiado resultou na publicação de nove livros de partituras e na gravação de nove CD?s.

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