Marido de vítima é acusado de extorsão

Em segundo dia de júri de médico, testemunhas pendem para a defesa

Laura Diniz, O Estadao de S.Paulo

17 Abril 2008 | 00h00

O porteiro João Augusto de Lima, de 50 anos, foi acusado ontem de ser cúmplice na perseguição realizada por sua mulher, Maria do Carmo Alves, ao médico Farah Jorge Farah, por querer dinheiro. "Ele (Lima) disse que o doutor Farah tinha molestado a mulher dele e tinha de pagar por isso. Ele queria dinheiro", atacou a sobrinha do médico, Tânia Maria Homsi, em depoimento no 2º Tribunal do Júri da capital. Apesar de mover uma ação com pedido de indenização contra o médico, Lima negou qualquer interesse financeiro - "é mais para me vingar um pouco" - e garantiu não ter tido conhecimento nem da perseguição nem do caso amoroso que Farah relata ter tido com a vítima. "Não admitiria", disse sobre a suposta traição. No segundo dia do julgamento do médico pelo assassinato de Maria do Carmo, em janeiro de 2003, os depoimentos penderam para o lado de Farah, que alega legítima defesa. Além das contradições do marido e das outras testemunhas, pesam a favor de Farah depoimentos de familiares e ex-funcionárias. Eles confirmaram a perseguição feita por Maria do Carmo - a defesa fala em 100 ligações diárias, em média -, o desespero que as atitudes dela causavam no médico e a "tortura" de seus parentes, também importunados em suas casas com os telefonemas em que procurava por ele. Onze pessoas foram ouvidas ontem, 21 no total. Uma das principais testemunhas de acusação, a ex-paciente Ana Maria Teixeira de Matos, tornou-se uma peça chave na defesa, graças a dois fatos, fundamentalmente. Ana Maria afirmou que, ao acordar de um procedimento cirúrgico na clínica de Farah, surpreendeu-se com pênis do médico em sua boca, mas, como estava sedada, não teve certeza se era realidade ou delírio. Apesar disso, relata que não contou o ocorrido ao marido e manteve uma relação de amizade com o réu e sua família por cerca de dois anos. "Tinha dó dele (compaixão porque ele tinha câncer) e dos pais dele", justificou. Farah registrou um boletim de ocorrência contra Ana Maria, descrevendo uma situação muito semelhante à de Maria do Carmo. Relatou à polícia que teve um caso com ela e, após o término da relação, ela passou a persegui-lo. Uma outra ex-paciente, amiga de Ana Maria, também foi enquadrada pelo médico no BO. A testemunha negou o caso, mas deixou brechas no depoimento. Perguntada se foi alguma vez ao apartamento dele, a ex-paciente negou. No entanto, indagada especificamente sobre um dia em que seu carro ficou estacionado na garagem dele até às 4h da manhã, admitiu tê-lo visitado. Em seguida, assumiu ter ido lá ainda outra vez. ABUSO SEXUAL No total, quatro mulheres alegaram ter sido molestadas pelo médico - nos depoimentos, todas pediram que ele fosse retirado do plenário, assim como o porteiro Lima. Algumas dessas testemunhas relatam que suas cirurgias plásticas foram mal sucedidas. "Falavam de frutas, que ele bebia o sangue, que se masturbava", disse ontem uma das testemunhas, sobre outras ex-pacientes. Sandra Maria Sampaio afirmou ter se consultado com Farah para fazer uma cirurgia no seio e que o resultado foi bastante insatisfatório. Ela declarou que foi beijada pelo médico durante a operação, "pegou trauma de beijo" e deixou que as filhas a beijassem somente após 11 anos do fato. A defesa do médico fez perguntas para tentar deixar claro que, sob o efeito do anestésico aplicado para a realização do procedimento, não haveria como terem percebido eventual abuso por parte dele. "Você sentiu dor durante a cirurgia?", perguntou uma das advogadas do médico, Cristiane Battaglia, a uma delas. O objetivo era que a resposta "não" - que, de fato, foi dada - comprovasse que ela não poderia ter notado nada. Segundo o defensor de Farah, Roberto Podval, todas as mulheres que entraram com ações cíveis e criminais contra Farah, não obtiveram sucesso na Justiça. AVALIAÇÕES "Acho que ele não vai preso", afirmou o marido da vítima, sobre o final do julgamento, previsto para hoje à noite. "Mas gostaria que fosse", emendou. O segundo dia de julgamento "aumentou as expectativas" de vitória do advogado de Farah. Para o promotor Alexandre Pereira, os depoimentos das ex-pacientes foram chocantes e mostraram que "jamais poderia se imaginar que, por trás daquela fachada de homem aparentemente bom, honesto e trabalhador, se escondia um pervertido que se aproveitava de sua condição de médico para abusar de suas pacientes". A grande incógnita da decisão do júri de hoje é o peso que as cinco mulheres e os dois homens darão para o esquartejamento da vítima no julgamento do homicídio. Se Farah não tivesse dissecado Maria do Carmo, a defesa estaria numa posição confortável para brigar pela absolvição. No entanto, as imagens do corpo esquartejado devem pesar muito na comparação com os depoimentos, que favorecem a defesa.

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