Marina tem princípios demais, avalia ''The Economist''

Revista britânica lembra que senadora se negou a criticar Lula ao deixar ministério e na campanha lhe faz leve oposição

Lucas de Abreu Maia, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

O discurso eleitoral da pré-candidata do PV à Presidência, Marina Silva, chegou às páginas da revista britânica The Economist. "De vez em quando, surge um político que parece ter muitos princípios para ser jogado na briga canina eleitoral", diz a publicação, destacando que Marina "parece ser uma candidata desse tipo".

Em um breve perfil, a revista apresenta a senadora como "outra Silva" - em referência ao sobrenome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva -, e menciona sua história no Acre e na campanha ambiental ao lado de Chico Mendes. Exemplifica ainda sua postura com sua saída silenciosa do Ministério do Meio Ambiente: "Ela se negou a criticar Lula publicamente", diz o texto. Na campanha presidencial, contudo, Marina faz uma leve oposição ao presidente, diz a reportagem, ao afirmar que o País precisa reduzir a carga tributária e ao criticar a política externa atual.

O principal tema de sua campanha, no entendimento da The Economist, é a defesa da responsabilidade moral do Brasil em se tornar uma economia de alta tecnologia e baixa emissão de carbono, como exemplo para outros países em desenvolvimento.

Marina deve chegar hoje a Washington para participar de eventos em homenagem ao Dia da Terra, celebrado na última quarta-feira. A candidata deverá se encontrar com políticos americanos ligados à causa ambiental.

Princípios. Ontem, em entrevista à Rádio Jovem Pan, Marina retomou o que a The Economist classificou de "discurso de princípios". A pré-candidata verde reconheceu que seu partido dificilmente conseguirá coligações para o primeiro turno das eleições presidenciais, mas disse estar investindo em um "movimento transpartidário".

"Não temos tido grandes esperanças em relação a, no primeiro turno, termos alianças formais com partidos", afirmou Marina. "Mas estamos trabalhando para que este seja um processo de diálogo com a sociedade, de envolvimento com as mulheres, os homens, os jovens, os empresários." Ela criticou o que chamou de cálculo pragmático. "É só decidir quem tem mais tempo de televisão, juntar-se a ele quem tem mais estrutura, e o eleitor fica colocado como se fosse um ser passivo."

Ciro. Marina disse na entrevista lamentar a saída do deputado Ciro Gomes (PSB) da corrida presidencial. "Quanto mais candidatos tivermos para debater as questões do País, melhor. Obviamente que a presença do Ciro Gomes nessas eleições dá uma grande contribuição para esse objetivo da democracia", defendeu a senadora.

Para ela, "lamentavelmente há um esforço que vem sendo feito nessa ideia do plebiscito, que elimina a possibilidade do debate". Sem mencionar nomes, disse que há "uma tentativa de empobrecer a própria democracia" - uma crítica velada ao presidente Lula, que defende uma eleição de formato plebiscitário entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB).

Apesar de falar em "conquistas dos últimos 16 anos", Marina desqualificou um debate centrado nas realizações dos governos Lula e Fernando Henrique, "por mais relevante que sejam estes homens e seus passados, o Brasil é maior do que o passado deles". E acrescentou: "Depois veio a ideia de que era uma disputa entre currículos, o do governador Serra e da ministra Dilma. Mais uma vez, o Brasil e os 190 milhões de brasileiros são bem maiores do que isso".

A pré-candidata se recusou a comentar uma possível aliança para o segundo turno. "Não vou entrar num debate que me tira do segundo turno." Ela se disse satisfeita com os resultados das últimas pesquisas eleitorais - nas quais oscila entre 8 e 10% - e criticou o leilão para a construção da hidrelétrica de Belo Monte, que afirma não ter sido feito com transparência.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.