Marina tenta superar divórcio com PT

Dívidas políticas à parte, senadora do PV oficializa hoje candidatura à Presidência disposta a levar adiante a agenda que considerou sem espaço dentro do governo Lula

João Domingos / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2010 | 00h00

PERFIL

Maria Osmarina Marina Silva de Lima

Idade: 52 anos

Naturalidade: Breu Velho (AC)

Profissão: professora de História

Formação: graduada em História, pela Universidade Federal do Acre

Histórico político: fundadora do PT, foi vereadora em Rio Branco (1988/1990), deputada estadual (1990/1994), senadora por dois mandatos (1995/2010). Em 2009, deixou o Ministério do Meio Ambiente de Lula e transferiu-se para o PV

Estado civil: casada

Filhos: quatro

Religião: cristã protestante, da Assembleia de Deus, à qual se converteu em 1997

Militância política: pertenceu ao clandestino Partido Revolucionário Comunista (PRC), que se abrigava no PT, por influência da Igreja Católica

Partidos aliados: não tem

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A senadora Marina Silva (PV-AC) será, entre os pretendentes à cadeira presidencial, a primeira a ter sua campanha oficializada em convenção partidária, marcada para hoje, em Brasília. Sua entrada no auditório do Centro de Convenções Brasil 21, de onde sairá candidata, terá um intenso significado político e emocional: para dar o sim ao Partido Verde, precisou vencer fortes dúvidas de consciência - tamanha a gratidão que tem pelo PT e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do qual se sentia devedora.

Dívidas políticas à parte, porém, a senadora acreana acabou cedendo ao que considerava mais importante para o País: levar para a disputa presidencial sua cruzada pelo desenvolvimento sustentável, que pregou, sem muito sucesso, nos seus cinco anos e meio como ministra do Meio Ambiente. Além disso, acredita que a batalha eleitoral vai lhe devolver, aos 52 anos, o encanto que perdeu pelo Senado. Sob os holofotes nacionais que lhe trará a candidatura, poderá cobrar da ex-ministra Dilma Rousseff (PT)as posições que adotou, segundo ela, contrárias à causa ambiental e que a levaram a deixar o governo Lula em maio de 2008.

Marina já chega à convenção com um gosto de vitória, seja qual for o resultado em outubro, tantos os obstáculos que superou pelo caminho. Pegou hepatite, foi contaminada por mercúrio - mal do qual jamais se curou -, chegou a ser desenganada e sobreviveu, ficou órfã de mãe aos 15 anos e só se alfabetizou aos 16, pelo antigo Mobral, projeto de alfabetização criado no regime militar.

Poderia ter virado freira, sua intenção primeira na transição entre a adolescência e a fase adulta. Nada disso. Casou-se por duas vezes, teve quatro filhos, dois de cada um dos maridos. Entrou para as Comunidades Eclesiais de Base (CEB) da Igreja Católica, enveredou pelo marxismo e militou no Partido Comunista Revolucionário (PRC), que se abrigava dentro do PT.

A prática política a afastou dos resquícios marxistas: a mais jovem senadora já eleita no Brasil é hoje uma ambientalista mundialmente respeitada e protestante convertida em 1997 - depois de, à beira da morte, ouvir de um pastor palavras que, segundo ela mesma, lhe devolveram a vida. Tornou-se missionária da Assembleia de Deus, um dos principais postos da maior Igreja pentecostal do País, com cerca de 8,4 milhões de fieis, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Memórias. Ao subir à tribuna para seu discurso de candidata, e pregar um programa de desenvolvimento sustentável para o País, Maria Osmarina Marina Silva de Lima por certo vai lembrar-se de tudo isso. Poderá lembrar-se também, rapidamente, de ter-se formado em História pela Universidade Federal do Acre, aos 26 anos, da eleição para vereadora quatro anos depois, da chegada à Câmara como deputada em 1990 e ao Senado em 1994, aos 36 anos.

Esse foi outro momento decisivo: com a eleição para senadora, 16 anos atrás, a humilde cabocla dos confins da Amazônia abria os horizontes e tornava-se uma cidadã do mundo. Dois anos depois, ganhou o Prêmio Goldman de Meio Ambiente, como representante das Américas do Sul e Central, em San Francisco, Estados Unidos. Em 2003, seria convidada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a ocupar o Ministério do Meio Ambiente.

Os prêmios e a influência na luta pelo meio ambiente se encadearam de tal forma que ela chegou a ser lembrada como potencial candidata ao Prêmio Nobel da Paz. Sinal de seu prestígio, em janeiro de 2008 o jornal britânico The Guardian a incluiu entre "as 50 pessoas que poderiam salvar o planeta". Foi a única latino-americana da lista.

Um mês depois, no entanto, começaram os desentendimentos com o Planalto, por causa das grandes obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ela deixou o ministério em maio, entendendo que, de fora, sua luta seria mais eficaz. Deu certo. De lá para cá, a questão ambiental não saiu das discussões nacionais.

Era quase inevitável, ao deixar o governo, que ela pensasse na possibilidade de mudar de partido. Já no final de seus dias no ministério, politicamente abandonada pelo PT, foi convidada a entrar no PV. Ficou de pensar.

Ela pensou, e muito. Não tinha mais nenhum encanto pela rotina do Congresso nem disposição para um novo mandato. Criou coragem, venceu as dores de consciência e deu o maior salto político da carreira, entrando no PV e aceitando disputar a sucessão de Lula.

Construção do vice. Definido o novo projeto, começou a pensar na figura do vice. Não demorou a concluir que Guilherme Leal, dono da Natura, que conhecera quando ministra, encaixava-se com perfeição no figurino.

Leal é desses empresários com tino para o negócio e um olhar no futuro. Percebendo a importância do desenvolvimento sustentável, levou sua empresa, a Natura, para esse nicho. E toda vez que Marina fazia uma cerimônia e convidava empresas a delas participar, Leal aparecia pessoalmente.

Ao primeiro convite de Marina, o empresário hesitou. Ela insistiu - a insistência é uma de suas mais fortes marcas pessoais - e ele acabou por aceitar. Mas fez um acordo: vai ajudá-la financeiramente na campanha, mas tudo será transparente. Por exemplo: se pagar o combustível de uma aeronave, deverá ficar claro que foi ele quem bancou a despesa.

O jeito frágil e a fala mansa disfarçam um pouco a insistência de Marina. Quando ministra, costumava ir ao Palácio do Planalto com uma papelada debaixo do braço para ser entregue ao presidente Lula. Batia de porta em porta, de ministro em ministro, e só sossegava quando conseguia a audiência com Lula e saía com a promessa de que seria atendida.

O que, porém, nem sempre ocorria. No primeiro governo Lula ela travou uma guerra com os então ministros da Casa Civil, José Dirceu, e da Agricultura, Roberto Rodrigues, na tentativa de evitar a aprovação do plantio e comércio de soja transgênica. Perdeu. Chorou. Mas não pediu demissão naquele momento.

Marina gosta de novidades. Assim como foi alfabetizada somente aos 16 anos, seu contato com o moderno mundo da informática também se deu tardiamente. Hoje ela é uma craque no assunto. No momento participa do site de relacionamentos Twitter e tem um blog (minhamarinha.org.br/blog), ambos alimentados diretamente por ela.

Outra de suas marcas: ela é centralizadora, embora consiga disfarçar essa sua característica. Numa reunião, costuma deixar todos os presentes falarem. Depois agradece, faz uma síntese e anuncia a conclusão. Que é dela mesma. Quando se despede, não se esquece nunca de dizer: "Fique com Deus".

"Lula foi e ainda é inspiração para mim. Eventuais desencontros jamais irão suprimir o encontro da construção dos sonhos"

"Tem uma parte do empresariado que está com a Dilma, uma parte com o Serra. E uma parte do empresariado, de vanguarda, pessoas que já estão atualizando seus negócios, que estão mais próximas a mim e ao Guilherme Leal"

DO SERINGAL AO CONGRESSO

1968

Aos 10 anos, começa a trabalhar no seringal para ajudar família

1984

Forma-se em História e em 1986 filia-se ao PT

1988

É eleita vereadora e em 1990 elegeu-se deputada estadual pelo Acre

1994

Com apoio de Lula, é eleita senadora e reeleita em 2002

2003

Assume o Ministério do Meio Ambiente

2008

Pede

demissão do ministério e reassume o posto de senadora

2009

Deixa o PT para se filiar ao PV

2010

Disputa o Planalto, com o empresário Guilherme Leal como vice

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