Marzagão liga greve a trocas de chefia

Ausente até agora dos debates a respeito da greve da Polícia Civil em São Paulo, que completa hoje 47 dias, o secretário de Segurança Pública, Ronaldo Marzagão, evitou se pronunciar até no auge da crise, quando as Polícias Civil e Militar entraram em confronto nos arredores do Palácio dos Bandeirantes, com um saldo de 32 feridos. Na tarde de ontem, Marzagão recebeu o Estado para falar pela primeira vez sobre o assunto e ligou a paralisação às trocas nas chefias da corporação feitas pelo governo do Estado.Segundo ele, as reivindicações vão além das questões salariais e dos interesses político-partidários, aspecto destacado pelo governo após o confronto no Morumbi nas vésperas das eleições municipais. Para o secretário, deve-se também levar em conta mudanças importantes feitas na cúpula da polícia que, segundo ele, contrariaram interesses que permaneciam intocados havia anos. Evitando personalizar ou citar nomes, Marzagão cita como exemplos os casos que levaram ao afastamento de delegados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) em Ferraz de Vasconcelos e a prisão de funcionários em Circunscrições Regionais de Trânsito (Ciretrans) envolvidas com esquemas fraudulentos de emissão de carteiras de motoristas. Aponta também transformações estruturais como as verificadas em seccionais importantes, como as de Mogi das Cruzes e Bauru, e em departamentos como o de Polícia Judiciária da Macro São Paulo (Demacro) e na Divisão de Inteligência Policial (Dipol)."O governador José Serra incumbiu-me de implementar mudanças de cultura. Há profissionalização e meritocracia, não loteamento de cargos. Uma mudança de cultura não é absorvida facilmente. Há sempre resistências a essas mudanças e não será por causa dessas resistências que iremos mudar nosso caminho, que já está traçado e é irreversível", diz Marzagão. Segundo ele, as ingerências políticas não afetam mais escolhas para os cargos mais importantes na hierarquia. "É o Conselho da Polícia Civil quem indica, com base em critérios técnicos e na análise das fichas dos candidatos, tanto a profissional quanto a da Corregedoria."Procurado, o delegado André Dahmer, diretor da Associação dos Delegados de São Paulo, considera a análise do secretário de Segurança Pública equivocada. "Houve poucas mudanças na cúpula da polícia. Dos 24 integrantes do Conselho de Polícia, mudaram somente quatro. E nós queremos mudanças mais profundas, com base em critérios técnicos e em méritos. Queremos mais. E isso não está acontecendo."Marzagão destacou que a discussão sobre reajustes nos salários e na carreira dos policiais civis não cabe mais ao governo, mas à Assembléia Legislativa. "Enviamos o projeto com as propostas. A decisão está nas mãos dos deputados."

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