''''Me enchi de viver com medo'''', diz ex-moradora do bairro

Professora já virou refém e viu o filho ficar paraplégico

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

07 Agosto 2028 | 00h00

Tudo que a professora Anita Close levou do bairro do Morumbi foram alguns poucos móveis e um punhado de más lembranças. Depois de dez anos morando na região, ela resolveu de um dia para o outro vender tudo - incluindo boa parte da mobília, mesmo que por 60% do valor de mercado - e mudar para um flat bem longe do Morumbi. "A idéia de morar num lugar bonito na verdade virou um pesadelo", diz. "Já fui assaltada, já virei refém, meus vizinhos foram assaltados, meu filho foi assaltado e tomou um tiro que o deixou paraplégico... E nesse tempo todo, ninguém fez nada para melhorar o bairro. Me enchi de viver com medo."Não só Anita. Segundo levantamento da Secretaria da Segurança Pública, o número de assaltos e roubos no distrito aumentou de 8.382 em 2005 para 8.928 no ano passado. Em muitos aspectos, o Morumbi é um caso único na cidade, difícil de entender e mais difícil ainda de resolver. Uma região onde a riqueza e a pobreza dividem o mesmo espaço - em uma esquina, apartamentos de milhões de reais; na outra, um barraco de Paraisópolis, a segunda maior favela da capital. "Essa dualidade cria um conflito social", diz o sociólogo Tulio Kahn. "A causa da criminalidade é justamente o sentimento de frustração, a expectativa de possuir algo que a outra pessoa tem."Atraída pelas ruas arborizadas, Anita Close comprou há dez anos um espaçoso sobrado no Morumbi com direito a uma piscina daquelas de revista de decoração. A tranqüilidade se transformou em agonia em poucos meses. Um grupo armado invadiu a residência e levou tudo, depois de fazê-la refém. Não deu nem para passar o susto e seu filho, Breno, hoje com 36 anos, tomou um tiro durante um assalto na porta de casa e ficará numa cadeira de rodas para o resto da vida. "O que mais me irrita é que nada mudou desde então", diz ela, que deixou o Morumbi no começo do ano. "Eu virei diretora do Conselho de Segurança do bairro para fazer com que os moradores se mexessem, mas poucos responderam aos meus apelos. Só no começo deste ano, vários vizinhos foram roubados. O número de assaltos a casas deve ser o triplo do que as estatísticas mostram, mas ninguém faz BO por medo de represálias. Desse jeito, com essa passividade, nada vai mudar mesmo."

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