'Me sinto um animal abandonado', diz brasileiro retido em Madri

Jovem capixaba narra as quase 48 horas de tensão que passou no aeroporto da Espanha

Andressa Zanandrea, do Jornal da Tarde,

07 de março de 2008 | 10h55

"Me sinto um animal abandonado", disse o vendedor Valter Vaz Lauwers, de 21 anos, ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Cumbica, na Grande São Paulo, na manhã desta sexta-feira, 7. Com o rosto abatido e cansado, o capixaba narrou as quase 48 horas de tensão que passou no aeroporto de Madri, depois de ter a sua entrada no país negada na manhã da quarta-feira. Ao todo, um grupo de 30 brasileiros foram barrados por agentes da imigração espanhola entre a quarta e a quinta-feira.   Veja também: Brasileiros barrados na Espanha chegam a SP Espanhóis são barrados em Aeroporto Saiba como agir se for barrado em aeroporto Policiais chamaram brasileiros de 'cachorros' Brasil ameaça restringir entrada de espanhóis Brasil deve adotar medidas contra espanhóis?    Segundo Lauwers, os funcionários do aeroporto espanhol pediram para que ele seguisse até uma sala separada assim que olharam o seu passaporte brasileiro. O jovem apresentou os documentos pedidos e o cartão de crédito, mas estava sem a passagem de volta, que seria retirada no aeroporto de Portugal, onde Lauwers pretendia passar dez dias com o tio. "Tentei explicar, mas eles disseram que não queriam saber da minha explicação", diz o jovem.   O capixaba conta que ficou na mesma sala até as 23 horas da quarta-feira sem comer, beber, e sem receber explicações. Após receber a notícia de que seria deportado, ele foi transferido para uma segunda sala com beliches, onde havia muito mais gente do que camas, inclusive idosos e crianças. A primeira refeição que receberam era composta de "feijão frio, maçã e pão duro".   O promotor de vendas brasiliense Marcos Vinicius Silva dos Santos, de 23 anos, passaria sete dias em Paris com um amigo, mas também teve sua entrada na Espanha negada na quinta-feira. Ao desembarcar em Cumbica nesta sexta, ele carregava apenas a mala de mão, já que sua bagagem seguiu direto para Paris. "Quando cheguei, olharam o passaporte e perguntaram: 'brasileiro?' e me mandaram para a sala da polícia. Ninguém falava nada, só olhava com cara feia. Parecia que poderia acontecer o pior a qualquer momento."   O brasiliense também falou sobre as más condições do quarto em que os brasileiros dormiam e disse que o local era equipado com câmeras e vidro fumê e não tinha água. Segundo ele, alguns brasileiros estão vivendo há uma semana nessas condições no aeroporto de Madri e só irão retornar ao País no domingo.   Grávida de cinco meses, a estudante goiana Lucineire de Souza Rocha, de 21 anos, também foi barrada na Espanha e diz que se sentiu "como um cachorro" pelo tratamento que recebeu. Segundo ela, o seu namorado espanhol, pai da criança, acionou um advogado em Madri, que não conseguiu solucionar o caso. Ela morava há um ano no país europeu e passou uma temporada de dois meses no Brasil.   Em sua primeira viagem internacional, o estudante mato-grossense Bruno Souza, de 18 anos, planejava passar férias em La Coruña e conhecer toda a Espanha. Ele ficaria hospedado na casa de um tio que mora no país há seis anos e é casado com uma nativa. "Falaram para mim que faltava um documento, mas não disseram qual. Há intolerância contra brasileiros e eles são muito ignorantes. Não podíamos nem fazer perguntas. Quando voltamos, os policiais falaram para a gente: 'voltem para seu país de merda'. Lá a gente não vale nada mesmo."   Os tios do estudante devem acionar a Justiça espanhola pelo ocorrido. "Minha tia foi na polícia, na embaixada, e não adiantou. Eles vão entrar com processo por danos morais e materiais."

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