Mecenas lapidam talentos no exterior

Eles são discretos, para evitar avalanche de pedidos de apoio

Renato Machado, O Estadao de S.Paulo

26 Outubro 2008 | 00h00

Até 1º de julho de 2004, a palavra mecenato só havia aparecido na vida do empresário paulistano Roberto Baumgart nos tempos de escola, nas aulas de história. Ele achava distante da realidade os ensinamentos dos professores sobre homens ricos que davam proteção e financiavam artistas. Mas, naquela noite, descobriu que a prática ainda existe. Após o concerto de Pablo Rossi - então com 15 anos - com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e uma conversa nos bastidores com o jovem pianista, Roberto e sua mulher, Yara, viraram "novos mecenas". Numa época em que as apresentações culturais acontecem em espaços com grandes anúncios publicitários, os mecenas atuais procuram se manter discretos a respeito dos patrocínios, por medo de seqüestros e para não receber uma avalanche de pedidos de ajuda - quando suas ações são divulgadas. Por outro lado, enquanto os financiadores do passado traziam os artistas para dentro de seus castelos, os atuais gastam milhares de euros e dólares para mandar os protegidos para estudar no exterior, principalmente quando se trata de músicos. Rússia, Polônia, Alemanha e Estados Unidos são os principais destinos, uma vez que nesses países estão os melhores conservatórios e os artistas têm oportunidades para participar de concertos para jovens músicos e se tornarem mais conhecidos. Quando conheceu o casal Baumgart, Pablo Rossi morava em Florianópolis e viajava uma vez por semana para ter aulas em Curitiba com a pianista russa Olga Kiun. Para custear os estudos de música dele e dos outros dois irmãos, os pais, Domingo e Elizete Rossi, corriam atrás de patrocínios e também organizavam concertos beneficentes. Na noite do espetáculo na Sala São Paulo, Roberto Baumgart fez uma proposta para o músico. "Eu te pago as aulas e as viagens por um ano e depois a gente vê se deu certo." O próximo passo foi enviar Pablo Rossi a Moscou para estudar no conservatório Tchaikovsky. Quando a Orquestra Filarmônica de São Petersburgo veio realizar concertos no Brasil, em 2005, Elisso Virsaladze, que é música da orquestra e professora do conservatório, visitou sua amiga Olga Kiun e acabou conhecendo Pablo. Depois de ouvi-lo tocar, disse que o aceitaria na escola. Em fevereiro do ano seguinte, ele partiu para estudar no exterior. Com estudo, moradia e passagens, Baumgart gasta aproximadamente 5 mil por mês como mecenas. INFLUÊNCIA O mecenato também envolve o uso de influência para beneficiar os protegidos. Tradicional freqüentador e doador da Sociedade de Cultura Artística, Baumgart foi indagado se poderia bancar um novo piano para a entidade. "Fechado, mas a inauguração tem de ser com concerto do Pablo", disse ao superintendente do Cultura Artística, Gérald Perret. Pablo foi o primeiro a tocar no piano Steinway de mais de 100 mil, que acabou destruído no incêndio em agosto. A família Baumgart e Pablo Rossi criaram laços que vão além do profissionalismo. Essa relação faz o empresário ainda não ter certeza se irá patrocinar outros jovens quando seu pupilo caminhar sozinho. Nesse ponto, difere de outros patrocinadores, como o investidor do mercado financeiro Paulo Bilyk e o empresário Jair Ribeiro. Os dois dizem considerar o investimento em artistas como uma contribuição social e pretendem manter a prática com outras gerações. Paulo Bilyk atualmente colabora com três músicos que estudam no exterior. A idéia de patrocinar jovens artistas veio após ler num jornal uma reportagem sobre o pianista Fábio Martino. "Ele me pareceu diferente para um pianista, tinha um cabelão e estilo próprio. Então, fiquei curioso para ver se aqueles elogios que li eram verdade", diz. Bilyk convidou o artista para uma apresentação em Campos do Jordão. O patrocínio começou com o pagamento de temporadas de estudo na Europa. Bilyk também passou a custear as viagens do pianista para concursos no exterior, onde Martino obteve bons resultados. Mas essas viagens também mostraram que o artista necessitava mudar para continuar evoluindo. "Eu não cobro resultados, mas exijo que mostre interesse em evoluir. Nesse momento, ele tinha de ir para fora (para o exterior), para não ficar estagnado." Bilyk começou a pagar os estudos de Fábio Martino na Alemanha, mas também decidiu bancar outros artistas no exterior. Ele contribui com as despesas do pianista Fernando Calixto, que faz mestrado no Conservatório Estatal N.A. Rimsky Korsakov de São Petersburgo, na Rússia, e, com o empresário Jair Ribeiro, banca os estudos do jovem Ronaldo Rolim, que estuda na Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos. "É um crime ver jovens, com talento para ser novos Nelson Freire, não evoluírem por falta de apoio", diz Ribeiro.

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