Médica nega ambulância e chama mulher de 'psicopata' ao telefone

Ministério Público pediu novos depoimentos; Secretaria de Saúde catarinense também abriu sindicância para apurar a denúncia

Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2013 | 18h02

Uma médica é investigada por suspeita de omissão de socorro em Itajaí, no interior de Santa Catarina. Além de recusar o envio de uma ambulância ao policial civil Sacha Ferraz, que morreu de infarto em novembro de 2012, ela ainda chamou a mulher da vítima de "psicopata" durante o pedido de atendimento por telefone. A profissional, que na época trabalhava no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), depôs sobre o episódio na Polícia Civil nessa segunda-feira, 5.

Na conversa telefônica, divulgada pelo Bom Dia Brasil, da TV Globo, a mulher do policial, a dentista Christiane Dalçóquio, está nervosa e pede ajuda aos gritos. "Assim eu não consigo conversar. Se continuar assim, vou desligar o telefone. Preciso de alguém normal para falar comigo, e não uma psicopata, tá?", rebateu a médica. Christiane desiste, mas minutos depois fica mais calma e disca novamente o número. A mesma pessoa atende o telefone:

Médica do Samu: Você não tem carro aí?

Christiane: Não, não tem como levar.

Médica do Samu: Nada?

Christiane: Não, não tem. Tem que vir aqui.

Médica do Samu: Não é assim: "tem que vir aqui". A gente tem uma ambulância só com o médico. Não é assim que funciona.

A médica insiste para que Christiane leve o marido de carro ao pronto-socorro perto do prédio do casal. Mas, contrariada, a mulher do policial avisa que pedirá auxílio a um cardiologista que morava no mesmo edifício. Além do vizinho, o pai e o cunhado de Christiane a ajudaram a levar o marido ao hospital. Ferraz, de 30 anos e sem histórico de doenças cardíacas, não resistiu.

A dentista lamenta o despreparo no atendimento do Samu. "É um momento delicado para quem precisa da ajuda. O profissional precisa de treino técnico e psicológico". A ambulância mais próxima naquele dia, segundo Christiane, estava a menos de quatro quilômetros de distância.

Investigações. O inquérito foi aberto na Delegacia de Itajaí pouco depois da morte do policial, mas somente agora a médica foi encontrada para depor. De acordo com o advogado Ricardo Deucher, que representa a denunciada, sua cliente só soube do caso na última semana. "As gravações demonstram que ela fez as perguntas necessárias, se preocupou com o paciente e indicou medicamentos", defende. Ela recomendou, durante o telefonema, que Christiane desse aspirinas ao marido. Procurada, a médica preferiu não dar entrevistas nem ter seu nome revelado.

O depoimento da ex-profissional do Samu e trechos de sua conversa telefônica com a mulher do policial foram encaminhados ao Fórum de Itajaí. O promotor responsável, Ary Capella Neto, ainda solicitou à Polícia Civil outras partes da ligação gravada e o depoimento do vizinho cardiologista que ajudou Ferraz.

O advogado da dentista, Carlos Augusto Motta, aguarda as providências da polícia e do Ministério Público para a responsabilização da médica na esfera criminal. "Houve homicídio culposo. Ela foi negligente, sabia do risco de não mandar uma ambulância", critica.  Na área cível, Motta pretende ajuizar ações reparatórias contra a médica, o Estado de Santa Catarina e a Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, organização social conveniada com o governo catarinense para atendimentos médicos de urgência.

Na Secretaria de Saúde do Estado foi aberta uma sindicância para apurar a denúncia de omissão de socorro. A expectativa é que a comissão responsável conclua o trabalho entre 60 e 90 dias. "O médico deve fazer um diagnóstico inicial. Muitas vezes a conduta é orientar por telefone, mas depende da situação", explica a superintendente de serviços especializados e regulação da secretaria, Lisiane Bittencourt.

"A experiência também costuma dar mais sensibilidade aos profissionais nesse tipo de atendimento", avalia a superintendente, ao lembrar que a denunciada tem 27 anos e somente dois anos de carreira. A profissional já estava afastada da rede pública de Santa Catarina antes de falar com a polícia.

Até agora nenhuma denúncia sobre a morte de Ferraz foi levada ao Conselho Regional de Medicina catarinense. Desde 1998, já foram instauradas na autarquia 62 sindicâncias relacionadas a omissões de socorro. A maioria dos procedimentos, porém, foi arquivado e apenas três profissionais foram punidos nesse período.

Cobertura. A alternativa para os atendentes do Samu em situações de falta de veículos de resgate, segundo Lisiane Bittencourt, é acionar os bombeiros. No Estado, há 101 ambulâncias básicas e 23 UTIs móveis para uma população de aproximadamente 6,3 milhões de pessoas.

A assessoria de imprensa do Ministério de Saúde informou que Santa Catarina tem 100% de cobertura do Samu. A necessidade de novas ambulâncias, ainda de acordo com o ministério, deve ser encaminhada pelos gestores municipais e estaduais ao Executivo federal por meio de projetos.

Tudo o que sabemos sobre:
Santa Catarinamédicossamupsicopata

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.