Médico de Gracie é indiciado por homicídio

Laudo afirma que lutador morreu pela combinação de 7 drogas

Laura Diniz, O Estadao de S.Paulo

22 de fevereiro de 2008 | 00h00

O psiquiatra Sabino Ferreira de Farias Neto será indiciado pelo homicídio culposo - sem intenção de matar - do lutador Ryan Gracie, encontrado morto na cela do 91º Distrito (Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo), no dia 15 de dezembro. A informação foi dada pelo delegado do 91º DP, Roberto Calaça Vieira. Se condenado, a pena pode ser de um a três anos de prisão, com aumento possível de até 1/3 ou conversão da condenação em pena alternativa.A declaração foi feita após a divulgação oficial dos resultados do laudo necroscópico do lutador, no Instituto Médico Legal (IML). Segundo o médico Laércio de Oliveira César, que fez a necropsia, Ryan morreu em virtude da combinação de sete drogas em seu organismo - duas ilícitas (cocaína e maconha), duas lícitas, provavelmente, ingeridas pelo próprio lutador (Frontal e Dormonid) e três prescritas por Sabino (Fenergan, Haldol e Leporex). Outras três substâncias que Sabino disse ter aplicado em Ryan não foram encontradas na necropsia.Segundo César, a combinação de remédios "deprimiu" (o termo médico significa o contrário de estimular) o sistema nervoso central, que comanda a respiração. O médico não diz que "houve excesso de medicamentos", mas um "efeito aditivo" gerado pela interação deles, o que pode causar um efeito diferente do desejado. Isso pode ocorrer mesmo quando não há exagero nas doses. César explicou que as drogas ilícitas encontradas no organismo de Ryan potencializaram o efeito das lícitas - funcionaram como agravantes. Mas a combinação dos remédios, por si só, poderia ter causado a morte do lutador.Além disso, o laudo apontou que Ryan era cardíaco. O problema foi gerado, provavelmente, pelo uso continuado de cocaína. Durante a necropsia, foram encontradas 12 picadas no braço dele, sugerindo injeção da substância. É provável que também usasse crack.O delegado explicou que o indiciamento se dará por crime culposo porque Sabino, como médico de Ryan, sabia como tratá-lo e não mediu o risco de provocar um efeito adverso. A irmã de Ryan, Flávia Gracie, disse que o médico havia cuidado de Ryan uma única vez antes da prisão. "Ele (Sabino) foi chamado para pedir a transferência do meu irmão para o hospital", afirmou.Flávia pretende viajar a São Paulo para conversar com o promotor do caso, Paulo D?Amico Jr., e pedir que ele denuncie o médico por um crime mais grave que homicídio culposo. "Ele assumiu o risco de matar meu irmão", afirmou. O promotor não foi encontrado para comentar o caso. Sabino declarou, por meio da secretária, que só vai se pronunciar "oportunamente". O advogado dele, Pedro Lazarini Neto, também não foi localizado.O Conselho Regional de Medicina do Estado (Cremesp) irá solicitar o laudo retroscópico do IML para anexar à sindicância aberta em dezembro para investigar a conduta do psiquiatra. "O problema não é tanto a dose ou a combinação de medicamentos, mas sim a maneira como as drogas foram administradas", diz o cardiologista Renato Azevedo Júnior, primeiro-secretário do Cremesp. "Dar esses remédios e deixar o paciente sozinho em uma cela é absurdo. É preciso vigilância, de cuidados médicos, de um hospital." A sindicância do Cremesp deve ainda levar de três a quatro meses - o médico pode ser punido com a cassação de seu registro.

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