Médico gravava conversas com a ex-amante

O médico Farah Jorge Farah, de 53 anos, teria assassinado e esquartejado a ex-amante e cliente Maria do Carmo Alves, de 46, por não mais suportar a pressão da mulher, que insistia em reatar o namoro. Os depoimentos prestados nesta quinta-feira pelos pais do médico, Amália e Jorge, revelaram detalhes do namoro tumultuado entre ele e a vítima."A mãe de Farah disse que Maria do Carmo chegou a telefonar para ele mais de cinqüenta vezes no mesmo dia", informou o delegado Ítalo Miranda Júnior, que preside as investigações.Para conseguir provas contra ela e outras mulheres que teriam sido suas vítimas durante as cirurgias, Farah instalou um aparelho e gravava todas as conversas.A suspeita da polícia é que ele tenha mandado "grampear" o telefone da casa de Maria do Carmo. Numa das conversas gravadas, ela se queixa do barulho da linha e diz que vai ligar de um telefone público.Os pais de Farah falaram sobre os passos do médico na sexta-feira. Farah disse, em depoimento, que Maria do Carmo chegou ao consultório da Rua Alfredo Pujol, em Santana, por volta das 18 horas, e tentou atacá-lo com uma faca. Ele afirmou que a matou e "não lembrava de mais nada.""Os pais informaram que o médico esteve na casa deles, na Vila Mariana, na zona sul, na noite da sexta-feira. Jantou e saiu dizendo que iria dormir em seu apartamento, em Santana", disse o delegado. Miranda acredita que, da casa dos pais, onde o médico dormia pelo menos três vezes por semana, ele seguiu para a clínica."Ele deve ter matado Maria do Carmo e deixado o corpo na clínica. Voltou para dissecar o cadáver. Pela manhã, transportou os cinco sacos com as partes do corpo até o carro." Para levar os sacos de lixo até seu carro, um Daewoo 94 preto, que estava estacionado próximo da clínica, Farah recebeu a ajuda de uma pessoa bem próxima de sua família, que não sabia do conteúdo dos sacos."Sabemos quem é, e sua participação no transporte foi de boa-fé. Ele será ouvido no inquérito." O policial não disse quem seria esta pessoa, mas afirmou que ela deverá depor ainda esta semana. Nesta sexta serão ouvidas a secretária e enfermeira da clínica de Farah, Ernestina Leal, de 33 anos, conhecida por Nete; a sobrinha dela, Érica, e a atendente Eliete. Ernestina trabalha há três anos na clínica. Está em férias e foi substituída pela sobrinha."Ela tem que contar muita coisa. Espero que não venha com as respostas certas, porque foram os advogados de Farah que a encontraram", disse o delegado. Como Eliete estava de plantão na tarde de sexta-feira, Miranda quer saber se ela viu Maria do Carmo chegar à clínica. O irmão de Farah, Arthur, e um sobrinho também serão ouvidos nesta sexta. A reconstituição do crime ocorrerá no domingo.A perícia técnica deverá responder em poucos dias se um dos três bisturis apreendidos na clínica foi usado pelo médico para cortar o corpo da ex-amante. Além dos bisturis, o delegado Miranda mandou para a perícia do Instituto de Criminalística (IC) o material cirúrgico que estava sobre uma mesa, a pele humana recolhida da banheira da clínica, um saco com material cirúrgico e dois vidros com tecidos humanos - possivelmente as digitais de Maria do Carmo - recolhidos no apartamento dos pais de Farah.Os legistas do Instituto Médico-Legal (IML) informaram que Farah cortou as falanges da ex-amante, possivelmente para impedir a identificação. A mãe de Farah disse que tem uma ligação "estreita" com o filho, que seria doente. "Ele é muito bom e não sei o que realmente ocorreu", disse para o delegado.Nesta sexta-feira também prestaram declarações Silmara Maria, de 33 anos, e Sandra Maria Pinto Sampaio, de 43, submetidas a cirurgia plástica na clínica de Farah em 1993 e 1999. Sandra fez uma cirurgia de redução nas mamas, que achou excessiva. Afirmou em seu depoimento que foi molestada por Farah, o qual a teria dopado com um remédio com forte cheiro de laranja.Silmara fez lipoaspiração e informou à polícia ter sido molestada pelo médico enquanto estava dopada. "Achei que era alucinação por causa da anestesia." Ela também sentiu forte cheiro de laranja ao ser anestesiada.Nesta sexta, Dirceu Rossi, que visitou Farah por 30 minutos na cadeia, na quarta-feira, disse que não é pastor da Igreja Adventista do 7º Dia. É corretor de imóveis e amigo do médico.

Agencia Estado,

30 de janeiro de 2003 | 21h23

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