Médicos defendem sigilo em transplantes

Dependência emocional é um dos riscos apontados por especialistas; eles recomendam que receptores não sejam informados sobre doadores

Renato Machado e Mônica Cardoso, O Estadao de S.Paulo

26 Outubro 2008 | 00h00

O desfecho do seqüestro de Eloá deixou muita gente curiosa sobre quem seriam os receptores dos órgãos. Mas essa vontade diverge da posição dos médicos, que consideram prejudicial a divulgação das identidades de doadores e receptores. Não há lei que discipline o sigilo, mas profissionais consideram questão de ética manter o anonimato. Segundo a psicóloga-chefe do Instituto do Coração (Incor), Maria Elenita Favarato, os prejudicados, em grande parte, são os pacientes, que podem viver períodos de crise e se deixar influenciar pela vida dos doadores. Conhecer quem recebeu os órgãos pode prejudicar o processo de assumir a morte do parente. "Já tivemos casos de pessoas que se agarravam à idéia de que tinha uma parte viva dele em outro corpo. Aí, forçavam uma relação com o receptor, querendo comemorar aniversários do parente morto com ele." A fisioterapeuta Paula (nome fictício), de 39 anos, viveu uma situação ruim ao conhecer os parentes do doador do fígado - e foi ela quem os procurou. Como o transplante foi bastante divulgado - um dos primeiros interestaduais -, conseguiu identificar a família da doadora, em Campo Grande. No encontro, Paula sentiu frieza. "Eles estavam revoltados com a perda da filha e transmitiram esse sentimento para mim." No mês passado, oito anos após a cirurgia, Paula teve trombose e precisou de novo transplante. Quando recebeu ligação de que o órgão foi encontrado, pediu para que não divulgassem sua identidade. O diretor da Unidade de Transplantes do Hospital Dante Pazzanese, Sérgio Mies, diz que outro problema é quando se cria uma relação de dívida. "Quem perdeu pode se sentir no direito de exigir afeto." Médicos de sua equipe contam casos em que familiares dos doadores são de baixa renda e o receptor se sente na obrigação de ajudar. Os familiares, por outro lado, contrariam médicos e querem conhecer os receptores. CORAÇÃO DE TITÃ O metalúrgico aposentado Mário Varjão de Oliveira, de 58 anos, nem conhecia o grupo Titãs. Após receber o coração do guitarrista Marcelo Fromer,atropelado por uma moto em junho de 2001, tornou-se fã. Comprou CD, DVD e assistiu a um show. "Foi a maior felicidade da minha vida quando senti o coração batendo no meu peito pela primeira vez." Ele aguardava há dois anos na fila do transplante do Hospital Beneficência Portuguesa. Sofria de insuficiência cardíaca, provocada por mal de Chagas. "Tomava mais de 30 comprimidos por dia." Mesmo doente, ele trabalhava em uma empresa de autopeças em Itaquaquecetuba, onde mora, para ter acesso ao convênio médico. Os sintomas pioraram e Oliveira se aposentou. Perdeu a conta das vezes em que foi chamado para um transplante que não ocorreu por incompatibilidade. Hoje, faz consultas a cada três meses, abandonou o marca-passo e voltou a trabalhar. Seu sonho é conhecer a família do músico, principalmente a mãe, porque "agora ela é minha segunda mãe". E ele pretende retribuir. "Vou doar todos os meus órgãos." FÍGADO DE DESCONHECIDA A química aposentada Andréa Teixeira Soares, de 45 anos, não conheceu a família da doadora do fígado. "Gostaria de expressar minha gratidão, mas sei que pode causar dependência emocional." Para ajudar outras pessoas que aguardam na fila, ela participa da ONG Transpática, que promove a troca de experiências e palestras com médicos e psicólogos. "O apoio emocional é tão importante quanto a recuperação física."

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