Wilton Junior / Estadão
Wilton Junior / Estadão

Médicos lembram criatividade, dedicação e generosidade de Ivo Pitanguy

Cirurgião desenvolveu técnicas inovadoras e atendia população carente; ex-alunos criaram associação

Paula Felix e Vinícius Neder, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2016 | 22h48

SÃO PAULO e RIO - Criatividade, dedicação e generosidade estão entre as qualidades destacadas por profissionais que conviveram ou que acompanharam a trajetória do cirurgião plástico Ivo Pitanguy.

A admiração pelo profissional deu origem à Associação de Ex-alunos do Professor Ivo Pitanguy, fundada em 1974. “Ele foi um mestre, um diplomata, sempre oportuno em suas colocações e que conseguia transitar com a mesma desenvoltura entre as cabeças coroadas e a população carente da 38.ª Enfermaria da Santa Casa do Rio. Ele foi o precursor de todo o ensino da cirurgia plástica no mundo inteiro e nunca guardou o conhecimento (que tinha)”, afirmou Arnaldo Miró, presidente da entidade.

Miró conta que foi aluno de Pitanguy entre 1976 e 1979 e diz que ele era um professor dedicado. “Ele era extremamente metódico, disciplinado, exigia bastante dos seus alunos e incentivava o aprendizado.”

Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), Prado Neto diz que o cirurgião era “um homem a quem eu devia respeito, carinho, afeto e admiração. Tinha ele como amigo e mestre havia 40 anos.” Prado Neto diz que, apesar de ter desenvolvido técnicas que inspiraram profissionais no mundo inteiro, Pitanguy continuava se atualizando. “Ele foi o autor de técnicas para cirurgias de redução de mamas que também são utilizadas em mamas flácidas para elevá-las, técnicas de nariz, identificando uma estrutura chamada ligamento de Pitanguy que faz a manutenção da ponta no lugar, técnicas para orelha de abano e para a região do abdome. Anatomicamente, era um grande conhecedor do corpo humano.”

O ex-presidente da SBCP diz que outra qualidade do cirurgião era transitar por outras áreas. “O Pitanguy era um homem extremamente culto, que desenvolveu a literatura, tanto que era membro da Academia Brasileira de Letras.”

Humano. O lado humano e social foi lembrado por Carlos Uebel, integrante da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps). “Ele trouxe a cirurgia de restauração da face e do corpo e foi um grande baluarte para os queimados do Gran Circus Norte-Americano.” O incêndio, ocorrido em Niterói, em 1961, deixou mais de 500 mortos.

Uebel afirma que a 38.ª Enfermaria da Santa Casa do Rio, que é ligada ao Instituto Ivo Pitanguy, devolveu a autoestima a pessoas que, por condições financeiras, não poderiam fazer uma cirurgia plástica. “Ele desenvolveu um serviço que atende milhares de pacientes desafortunados de maneira graciosa e eficiente.”

Em 1995, o Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC) criou o Prêmio Ivo Pitanguy para trabalhos de pesquisa de cirurgiões brasileiros. “A cirurgia plástica está dividida entre antes e depois de Pitanguy”, diz o presidente do CBC, Heládio Feitosa.

Ícone. O cirurgião plástico carioca Eduardo Sucupira, que dirige a clínica que leva seu nome, definiu Pitanguy como “ícone máximo” da cirurgia plástica e da medicina. “A cirurgia plástica existe antes e depois de Pitanguy”, afirmou Sucupira, que foi aluno do cirurgião entre 1997 e 1999.

Sucupira falou ao Estado após deixar o serviço como médico voluntário dos Jogos Olímpicos do Rio, no Parque Olímpico, e chamou a atenção para a coincidência entre o falecimento de Pitanguy e a realização da Olimpíada no Brasil. “No momento em que a cerimônia de abertura elevou a autoestima do brasileiro, o dr. Pitanguy fez sua passagem”, afirmou Sucupira.

A preocupação com a autoestima das pessoas, segundo Sucupira, foi fundamental para que Pitanguy desenvolvesse seu trabalho social da Santa Casa da Misericórdia, no Rio. Com uma visão que não separava as intervenções estéticas das reparadoras, Pitanguy queria ajudar as pessoas a retornarem a sua vida social, contou.

“Um de seus ensinamentos é que sempre temos como ajudar alguém, nem que com uma palavra”, afirmou Sucupira.

A cirurgiã plástica Paula Casarsa, aluna de Pitanguy de 2006 a 2008, afirmou que seu professor deixa um legado incrível. “Não só para a cirurgia plástica, mas para a vida. Ele ensinava a arte de saber viver”, disse a médica.

Segundo Paula, Pitanguy, descrito como professor calmo, mas exigente, também se preocupava em formar seus alunos com visão humanista. “Ele ensinava a olhar o paciente com carinho e respeito, para além da cirurgia. Ensina a olhar o paciente como ser humano”, disse Paula.

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