Médicos no acidente da TAM esperavam pelo pior desde o início

Os primeiros médicos no local do acidente do vôo 3054 com um Airbus da TAM salvaram da morte cerca de 10 vítimas na terça-feira. Já os que chegaram depois, resignados, só puderam identificar os atingidos pela tragédia e tentar evitar mais sofrimento para as famílias. "Numa situação dessas proporções, a gente não chega pensando em sobreviventes", disse à Reuters o médico Douglas Ferrari, presidente do Instituto Brasileiro de Terapia Intensiva. "Talvez fosse diferente se o piloto esperasse pela colisão e tivesse se livrado de um pouco de combustível. Não foi o caso." Ele chegou ao local 15 minutos após o acidente, que aconteceu pouco antes das 19h de terça-feira, quando a aeronave tentou pousar no Aeroporto de Congonhas e, por causa desconhecida, passou direto pela pista e se chocou com um prédio da empresa e um posto de gasolina. "O atendimento foi mais para dimensionar a área atingida e, ao mesmo tempo, retirar vítimas próximas ao centro do acidente, que poderiam ter chances de vida", disse. "Depois disso, só dá para identificar as vítimas, liberá-las para os parentes." O médico, com cerca de 20 anos de experiência, disse que os ocupantes do avião provavelmente "tiveram poucos segundos de angústia entre o pouso e a colisão" e que "devem ter tido morte instantânea", uma vez que o impacto provoca o desmaio ou o óbito imediatamente. "Quem não faleceu naquele instante provavelmente ficou desacordado e morreu depois na explosão", completou. IRRITAÇÃO COM OS CURIOSOS Os médicos nem sempre conseguem manter a calma com o grande número de curiosos nas redondezas do local da colisão. Muitos tiram fotos com o celular e até fazem piadas diante dos escombros. "Tem hora que dá vontade de matar um desses", disse, exagerando, o médico Rogério Martins Tadini, de 28 anos, que também chegou ao Aeroporto de Congonhas minutos depois do acidente. Perguntado sobre a dificuldade de estar ali mesmo sabendo da morte certa das vítimas no avião, Tadini só conseguiu morder os lábios, olhar para baixo e responder com um lacônico "Pois é...". Segundo ele, apesar de praticamente não ter havido atendimento a sobreviventes, foi possível ajudar pessoas que vivem nas imediações e que passaram por grande trauma. "Aqui nós não podíamos fazer muito, esperamos cinco horas só para poder entrar no local do acidente, já que os bombeiros estavam fazendo trabalho de resfriamento ali", explicou. "Mas havia um casal de idosos em uma casa ao lado do posto de gasolina atingido que estava muito chocado. Nós os levamos para um hotel, conversamos com eles", contou o médico, já cercado por mais curiosos. Os esforços de identificação dos corpos por legistas e dentistas da polícia e do Instituto Médico Legal (IML) continuam sendo feitos nesta quinta-feira. Os parentes estão levando informações sobre as vítimas para ajudar. "Muitos dentistas dos passageiros mortos estão nos procurando com dados sobre os pacientes. Isso ajudará no processo de identificação e também no processo judicial", afirmou o doutor Ugo Frugoli, da Polícia Técnico-Científica de São Paulo. Ele disse que apenas em alguns casos é possível identificar as vítimas por meio de impressões digitais. Até agora, foram confirmados 185 mortos, segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Apenas 12 vítimas foram identificadas na tragédia.

MAURÍCIO SAVARESE, REUTERS

19 Julho 2007 | 13h51

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