Medo da polícia e da traição motiva fuga

Jovens avançam no tráfico, mas sem tempo nem para gastar o que ganham

Emilio Sant?anna, Rio, O Estadao de S.Paulo

21 de dezembro de 2008 | 00h00

"Algum dia vou morrer de tiro ou de traição." O pensamento nunca saiu da cabeça de C. S.,de 19 anos, três deles vividos no tráfico de drogas. Cria da favela, entrou para o "movimento" com 15 anos. Foi olheiro, vapor (vendedor) e, quando decidiu romper com o crime, segurança do dono do morro, o chefe do tráfico. "Resolvi sair quando vi um amigo de infância morrer do meu lado", conta. "Ele morreu com muito tiro. Foi embora no Caveirão."No mundo do tráfico das favelas cariocas tudo muda muito rápido. Na hierarquia das facções criminosas, traições e substituições dos postos mais altos por adolescentes cada vez mais novos se tornaram comuns. Torturas e punições do próprio grupo também. Antes que acontecesse com ele, C.S. resolveu sair. "Cheguei pro dono do morro e disse que não dava mais. Ele ficou chateado, mas concordou", conta."Se o garoto tiver o respeito do dono do morro é liberado, pois a comunidade está cheia de meninos querendo entrar", afirma Zilah Meirelles, diretora da ONG Espaço Cultural Dom Pixote, em Vila Isabel, zona norte do Rio. Nem o dinheiro - cerca de R$ 2 mil por mês -, o respeito do dono do morro e as mulheres que tinha quando estava no "movimento" seguraram C.S. no tráfico. "Vi a morte cinco vezes. Não dava mais", lembra.Entre os 30 jovens acompanhados pelo trabalho de Zilah, o medo de morrer em conflitos com a polícia e traficantes rivais, de ser traído por colegas e ser torturado por um "vacilo" foram os motivos mais relatados como fatores que motivaram o rompimento com o crime. "Ele vai vivendo uma série de situações limites que despertam nele o desejo de mudar de vida", diz Zilah."Invisíveis" é como a pediatra e ex-coordenadora do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (Nesa) da Uerj define os jovens ligados ao tráfico. "Quando anunciam que morreram cinco, nós vamos até o morro e ficamos sabendo que foram 15, 20", afirma. "Eles morrem como moscas."As situações limite foram ainda mais intensas na trajetória de G.R.S.. Em menos de dois anos no "movimento", ele se tornou gerente-geral, o segundo na hierarquia do tráfico. A primeira morte de que participou foi a de "um menino que cresceu comigo". "Mandamos jogar fora uma carga de maconha que estava mofada e sabe o que ele fez? Começou a vender e ficou com o dinheiro. O dono do morro mandou matar."Hoje, longe do Rio há mais de dois anos, se arrepende de tudo o que passou, mas na hora diz não ter sentido nada. "Quando é pra matar não vai um só, vão uns cinco. Sujeito fica até chateado se não consegue dar um tiro", afirma.Quando saiu, ganhava R$ 8 mil por semana, mas raramente tinha como gastar. "Estava recolhendo umas armas e senti uma coisa estranha, como se alguma coisa fosse acontecer. Desci, peguei um táxi e fui embora", diz. "Nunca mais voltei."

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