Medo de seqüestros afasta executivos estrangeiros

A repercussão internacional do seqüestro do publicitário Washington Olivetto e do assassinato do prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel (PT), colocou em estado de alerta as matrizes de empresas estrangeiras instaladas no Brasil e já provocou o cancelamento de centenas de viagens de executivos e empresários, principalmente norte-americanos e europeus, que deveriam desembarcar em aeroportos brasileiros nos últimos meses.A constatação é das duas maiores empresas de gerenciamento de riscos instaladas no país, a norte americana Kroll e a inglesa Control Risks. Entre seus serviços, as duas empresas planejam esquemas de segurança para executivos estrangeiros em viagem de trabalho ou que vivem com a família no Brasil."Os dois seqüestros tiveram repercussão internacional e, por isso, as empresas começaram a olhar o Brasil com maior atenção e descobriram que São Paulo, hoje, vence a Colômbia em número de seqüestros. Daí o medo", afirma o diretor da área de segurança pessoal e empresarial da Kroll, Vagner D´Angelo.D´Angelo diz que a política de sigilo da Kroll o impede de falar em números, mas garante que "muitas dezenas" de viagens mensais foram canceladas nos últimos meses. "Empresas que normalmente traziam cinco ou seis executivos em viagens periódicas, hoje reduziram este número para apenas um. Outras, transformaram em trimestrais viagens que eram mensais", diz ele.No mês passado, a pedido de empresas de seguro pessoal dos Estados Unidos, D´Angelo enviou para elas um relatório sobre a situação dos seqüestros no Brasil. O relatório traça o perfil do seqüestrado, do seqüestrador e estabelece até a média de valores dos resgates nas três modalidades mais usuais.No seqüestro relâmpago, que atinge principalmente a classe média, os resgates giram em torno de US$ 2 mil e US$ 5 mil e são praticados por bandidos comuns. Em seqüestros de empresários médios, organizados por grupos com pouca experiência, o resgate gira em torno de US$ 10 mil e US$ 50 mil; nos de grandes empresários ou executivos estrangeiros, os pedidos de resgate giram entre US$ 100 mil e US$ 300 mil.James Wigard, diretor da Control Risks no Brasil, acredita que o crescimento do medo entre executivos estrangeiros tem uma sombra de excesso. "No Brasil, vemos uma expansão muito grande do seqüestro relâmpago e do seqüestro de empresários médios. Nestes dois tipos de ações, dificilmente o executivo é vitima, pois ele já circula no Brasil com esquemas de segurança e, muitas vezes, com carros blindados", diz ele.Os dados de seqüestros e violência em São Paulo geralmente são vistos "fora do contexto" pelos executivos estrangeiros, segundo Wigard. "Estatisticamente, eles realmente causam espanto e deixam o estrangeiro nervoso. Mas se analisarmos com cuidado, veremos que o estrangeiro quase nunca é o alvo principal", diz ele.Para Wigard, o medo de vir ao Brasil nasce entre os próprios executivos e, só depois disso, é incluído na política das empresas. "Eles ouvem as notícias e fazem muitas exigências de segurança, segurança da família, para vir ao Brasil. Estas exigências aumentam muito o custo deles aqui e isso leva, obviamente, a empresas a repensarem sua política", diz ele.D´Angelo também admite que o medo é, muitas vezes, alimentado pelo desconhecimento que estes executivos têm da realidade brasileira. "Alguns chegam e têm medo de sair do aeroporto e pegar um táxi, acham que correm riscos de serem seqüestrados neste trajeto", lembra ele.Mas o medo já não é mais apenas dos estrangeiros. Nos últimos três meses, os aumento da demanda por serviços de segurança pessoal duplicou na Kroll. "Já estamos com dificuldades para atender este rápido aumento da demanda. Temos trabalhado, sem descanso, sábados e domingos", admite D´Angelo. "E neste caso a grande maioria é de empresários, profissionais liberais e executivos brasileiros."

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