Medo de ser a próxima vítima falou mais alto

Sem coragem para expor em público sua opinião, a maioria silenciosa da Câmara dos Deputados usou o voto secreto na sessão em que absolveu Jaqueline Roriz (PMN-DF) para fazer uma defesa do corporativismo da Casa e manifestar o temor da maioria de ter a própria conduta analisada no futuro.

Eduardo Bresciani, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2011 | 00h00

Do resultado do painel depreende-se que, dos 513 deputados federais, somente 166 acham que receber dinheiro de um esquema de corrupção é razão para cassação de mandato. Para todos os outros que votaram pela absolvição, se abstiveram ou faltaram, a conduta de Jaqueline não a impede de representar a população e atuar ao lado deles no Congresso.

Ao abraçarem a colega, os parlamentares mandaram um recado para a opinião pública de que é preciso algo ainda mais grave para que se despeçam de "um dos seus". Outro aviso dado é que, na visão deles, a eleição os absolve de qualquer ato realizado antes de assumir o mandato, mesmo sendo algo desconhecido dos cidadãos quando os escolheram.

O resultado traz mais uma vez à tona a discussão sobre o voto secreto dentro do Congresso.

Uma proposta de emenda constitucional (PEC) para acabar com esse expediente foi aprovada em primeiro turno em 2006, às vésperas da eleição. A análise em segundo turno, porém, é protelada sem nenhuma previsão para ser consumada.

A falta de interesse sobre esse tema reforça a tese de que, na realidade, a maioria dos parlamentares não julga ser direito do eleitor saber como age o representante que ele escolheu nas urnas. Por isso, o voto secreto na Câmara continua sendo usado para manifestar as posições que os deputados não têm coragem de expor publicamente.

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