Medo e esperança na vila fantasma de Caraíbas

No chão de terra batida, família estende lona e improvisa camas

O Estadao de S.Paulo

13 de dezembro de 2007 | 00h00

Jesuína Fiúza de Oliveira, de 54 anos, Abedias Gomes de Oliveira, de 47, e a filha caçula, Marileide de Oliveira, de 19, se acomodaram como podiam na madrugada de ontem, na área ao lado da casa destruída pelo terremoto do domingo. No chão de terra batida, eles estenderam uma lona preta e improvisaram embaixo de uma árvore uma cama de lençóis para aguardar a chegada logo cedo do caminhão que os levaria - juntamente com os últimos e poucos pertences da família - para a aldeia xacriabá, em São João das Missões. Os únicos habitantes em Caraíbas sonham agora com no endereço. "Morávamos aqui desde 1986, mas agora não tem jeito né? Tem de ir embora", disse Jesuína, entre a resignação e a esperança. "Arrumamos nossas coisas e vamos para a aldeia. Será que vamos ganhar mesmo casa?", indagou a mulher, que perdeu no terremoto a neta Jesiquele Oliveira da Silva, de 5 anos, e na segunda-feira recebeu a visita do governador, Aécio Neves (PSDB). Apesar do sentimento de tristeza, Jesuína estava aliviada por poder levar Malhado - o cachorro de estimação - para a nova moradia. Ansiosa, a família acendeu uma pequena fogueira no local, enquanto o sono não vinha. A apreensão por outros abalos permanecia. A reportagem percorreu Caraíbas e o povoado vizinho, Vargem Grande. O medo podia ser percebido na quantidade de luzes acesas por volta das 2 horas. No máximo, alguém espiava das frestas das janelas ou portas a passagem do automóvel. Durante o dia, foi a vez de Maria Bezerra, de 52 anos, retirar os pertences na área destruída de Caraíbas. Há meses, ela relatava num pequeno caderno os tremores. Os meses se passaram e o fenômeno não deu trégua. "Muitas vezes os terremotos eram seguidos de clarões", lamentou. Outra que buscou pertences foi Saturnina Bezerra, de 94 anos. Foi ela quem aos prantos resumiu a condição ao governador Aécio Neves. As paredes ainda estão ali, mas, na realidade, "a casa caiu".

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