Meirelles rejeita BC sem autonomia e mandato-tampão na presidência

Ele avalia, em conversas com interlocutores, que pressa para derrubar os juros comprometerá sua biografia e credibilidade

João Domingos / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2010 | 00h00

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está decidido a não aceitar nenhum convite para permanecer à frente da instituição, caso a presidente eleita, Dilma Rousseff, não lhe garanta autonomia absoluta de ação. Meirelles também não aceita a hipótese de servir de tampão durante o primeiro trimestre, até a escolha de um novo e definitivo presidente do BC.

Meirelles considera que ceder na autonomia - e há informações de que ela lhe será tomada, de forma a fazer com que a taxa de juros venha a sofrer queda mais rápida, até chegar a 2% (acima da inflação) em 2014 - comprometerá sua biografia e a credibilidade que conquistou nos oito anos à frente do BC, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Portanto, apurou o Estado, o caminho mais certo até agora no xadrez da montagem do ministério de Dilma será a substituição de Meirelles por alguém que tenha forma de pensar mais próxima da presidente eleita e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, confirmado no cargo. Meirelles estava ontem em Frankfurt.

Nesse caso, Alexandre Tombini, diretor de Normas e Sistema Financeiro do Banco Central, é o mais cotado para ocupar o lugar de Meirelles.

Dilma considera que a atuação de Meirelles foi muito importante para sustentar a política de combate à inflação do governo Lula. E que foi também certeiro nas medidas de contenção dos efeitos da crise econômica mundial de 2008 e 2009 no Brasil, ao liberar R$ 100 bilhões dos depósitos compulsórios dos bancos para irrigar o crédito num momento em que faltava dinheiro para o giro de capital de empresas e de pessoas físicas.

Mas Dilma quer centralizar em torno de si todas as ações econômicas do início do governo. Ela acha que o BC, combinado com a Fazenda e o Planejamento, tem de encontrar formas diferentes de promover o combate à escalada da inflação, hoje muito restrita ao aumento da taxa de juros. Como Dilma pretende sinalizar que vai baixar os juros de imediato, ela quer que a primeira reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) jogue as taxas para baixo.

Com o anúncio da centralização da política econômica e da pressão para que os juros baixem - o que Lula nunca exerceu em relação ao Banco Central -, Meirelles sente-se numa posição desconfortável. Ele não gostou também de ter seu nome vinculado a um possível mandato-tampão à frente da instituição.

Meirelles considera que, depois de cumprir um dos mais duradouros mandatos à frente da instituição (oito anos), se tornou qualificado para ocupar qualquer posto no governo.

Por isso, perder autonomia para aceitar o convite de ficar no BC poderia ser o grande erro de sua vida, capaz de afundar uma biografia que até agora exibe pontos positivos.

Dilma tem repetido o que disse em entrevista concedida ao SBT no dia 2, quando falou de sua disposição de centralizar a economia. "Não serão pessoas que serão responsáveis por isso", afirmou, referindo-se ao tripé formado por metas de inflação, câmbio flutuante e contas equilibradas.

PARA ENTENDER

No Brasil, independência do BC é "de fato"

A autonomia do Banco Central é a liberdade que esse órgão tem para fixar as taxas de juros no nível que considerar adequado para manter a inflação sob controle. No Brasil, essa autonomia existe de fato, mas não de direito. Ainda não foi aprovada, pelo Congresso, uma lei sacramentando a independência da autoridade monetária. A presidente eleita, Dilma Rousseff, acha que tal lei é desnecessária.

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