Epitacio Pessoa / Estadão
Epitacio Pessoa / Estadão

Memória da escravidão se apaga em SP

Nos 130 anos da abolição, nota-se que de mais de mil senzalas pouco restou em fazendas do interior paulista; apenas turismo mantém história

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2018 | 03h00

SOROCABA - Embora tenha durado oficialmente mais de três séculos, a escravidão negra deixou poucas marcas visíveis no interior de São Paulo. Nos 130 anos da abolição da escravatura, lembrados hoje, de quase mil senzalas existentes no auge dos ciclos da cana-de-açúcar e do café, resta não mais que uma dezena conservada em fazendas históricas, hoje voltadas para o turismo.

“Houve um processo de apagar a memória da escravidão porque o Brasil tem vergonha da história de sua formação”, diz o advogado Ademir José da Silva, presidente da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra, seção de Campinas. 

Um dos planos da comissão, de criar o Museu Paulista da Escravidão, esbarra na dificuldade de formar um acervo. “A gente vê objetos da pré-história e da época do descobrimento nos museus, mas não há quase nada do período escravocrata. Os grilhões e equipamentos de tortura simplesmente desapareceram”, afirma ele. 

Em São Paulo, essa história teve início durante o ciclo da cana-de-açúcar, no Vale do Paraíba e litoral, entre o fim do século 16 e todo o século 17, mas se intensificou com o ciclo do café, de 1800 até a abolição. A mão de obra escrava acompanhou o avanço das lavouras para o oeste. Em São Carlos, pesquisadores identificaram uma rota de comércio de escravos trazidos de Caetité, na Bahia. Para isso, foi instalado um mercado de escravos na Fazenda Babilônia, entre São Carlos e Descalvado, mas tanto os restos da estrutura como os registros oficiais desapareceram.

Feito nas coxas. As fazendas que mantêm acervo da escravidão o fazem hoje com fins turísticos. A Fazenda Concórdia, em Itu, é dos tempos áureos do café. As paredes de taipa batida foram erguidas pelos escravos, que também fizeram o telhado. As telhas eram produzidas na fazenda e tinham como moldes as próprias coxas dos negros, protegidas por cascas de jatobá, daí os tamanhos irregulares, dando origem ao termo “feito nas coxas”. A produção cabia a mulheres, gestantes e homens mais velhos, poupados do campo.

Em Jundiaí, a Fazenda Nossa Senhora da Conceição conserva, além da casa grande de quase 200 anos, parte da senzala que abrigava cerca de cem escravos. A fazenda pertenceu a Francisco José da Conceição, o Barão de Serra Negra, e em 1800 chegou a ter 350 mil pés de café em seus 7 mil hectares. Também está preservada a senzala da Fazenda dos Coqueiros, construída em 1855, em Bananal, no Vale do Paraíba. O acervo, aberto à visitação turística, inclui instrumentos de tortura dos escravos. 

A Fazenda Mandaguahy, em Jaú, da família Almeida Prado, preserva a senzala com objetos que remetem à época dos escravos. Já na Fazenda Capoava, em Itu, hoje um hotel sofisticado, as senzalas destinadas aos escravos domésticos, que serviam e conviviam com os senhores do engenho do século 18, foram transformadas em chalés para hóspedes. 

Resgate. Criada em 2015, a Comissão da Verdade defende a reparação dos danos causados à comunidade negra pela prática. “O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravatura e a teve pelo período mais extenso. Achamos que instituições e o próprio Estado devem responsabilizar-se pelos abusos, pedir desculpas e reparar os danos”, diz Silva.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.