Memórias de campanha

Palavras marcantes, provocações, modismos, abusos... enfim, o que vai ficar da disputa eleitoral na memória do eleitor quando a poeira baixar

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2010 | 00h00

Foram quatro meses muito estranhos. O País assistiu a uma campanha em que o assunto que mais pesou, o aborto, nada tinha de político e o político que mais pesou, o presidente Lula, não era candidato. Tudo indica que, da extenuante rotina eleitoral, vão ficar na memória dos brasileiros o desinteresse da maioria, os debates enfadonhos, a baixaria geral, a escassez de discussões sérias e um inesperado calor de uma inédita polêmica religiosa sobre o aborto. Mais uns poucos episódios e palavras, abaixo relacionados.

Aborto. Não costuma ser tema de campanha, mas, por força de grupos católicos e evangélicos, acabou incendiando corações e mentes e alterando as estratégias dos candidatos e de suas campanhas. Faltou, em muitas ocasiões, relembrar que se tratava de um assunto político e que, pela Constituição, o Estado é laico.

Baixaria. Uma das grandes marcas da campanha, uma guerra sem inocentes. Foi o anonimato da internet que a patrocinou e estimulou? Ou a facilidade e a rapidez das denúncias, nos e-mails e no Twitter, que a espalhou por toda parte?

Bolinha de papel. O episódio era, no início, uma passeata de um candidato, que um grupo organizado tentou impedir - mas isso foi esquecido. O que ficou foi a versão de que José Serra teria transformado uma pequena irreverência - uma bolinha de papel atirada em sua cabeça - num drama, só por oportunismo. Essa guerra de comunicação o PT venceu. O assunto virou piada no Twitter e pouca gente levou a sério que Serra tivesse sofrido outra agressão na cabeça, com um rolo de fita crepe.

Bolsa-Família. Apareceu menos do que em 2006, mas preserva sua dupla personalidade: é o maior programa social do País e uma fonte cativa de votos para o governo. E continua indiferente aos galanteios da oposição.

Chico das Verduras. Ex-presidiário de Roraima, Francisco Vieira Sampaio tornou-se deputado federal com um recorde de não-votação: 5.903 votos.

Dilmasia. Aliança formada em Minas entre as turmas de Dilma e de Antonio Anastasia, candidato tucano ao governo. Deu certo. Tanto o "Dilm" quanto o "Asia" venceram as disputas no Estado.

Dossiê. Epidemia que, como em todo ano eleitoral, voltou a atacar o mundo político. Espalhou invasão de privacidade por Santo André, Mauá, o interior de Minas, Brasília. É um vírus de coloração geralmente avermelhada, que se reproduz com facilidade e não deixa às vítimas - como, este ano, Eduardo Jorge e Verônica Serra - muitas chances de defesa.

Erenice. Se fosse filme, ela seria O Perigo Mora ao Lado. Erenice Guerra quase detonou a candidatura da grande amiga Dilma, com as irregulares que seus filhos - Israel e Saulo Guerra - fizeram, ali bem ao lado da Casa Civil. Não chegou a ser um Watergate, mas foi mais que Dossiê Vedoin.

Extirpar. Verbo que, na política, tem mania de significar o seu contrário. Lula falou em "extirpar" o DEM, num comício em Santa Catarina e seus adversários levaram tudo no primeiro turno. Na versão 1.0, em 2005, Jorge Bornhausen propôs "extirpar a raça dos petistas" e Lula ganhou com facilidade sua reeleição, meses depois.

"Eu considero que...". Mantra utilizado por Dilma, no início de suas frases, para levar adiante seus pensamentos. Que ela alternava, frequentemente, com "No que se refere a..."

Lulécio. Outra criação do folclore mineiro, que estreou com sucesso em 2006, quando o Estado elegeu Lula presidente e Aécio governador. Este ano, porém, não decolou, porque Lula descartou apoiar o candidato de Aécio e preferiu fechar com Hélio Costa.

Mãe do PAC. Um dos nomes de Dilma Rousseff, inventado por Lula para exaltar suas virtudes como grande gestora. Fez dupla com o "Pai da Nação" na sagrada família petista.

Marinar. Mania que encantou milhões de indecisos e de petistas descontentes no final do primeiro turno e que salvou a vida de José Serra, ao tornar o segundo inevitável.

Netinho. Cantor e apresentador de TV que, no primeiro turno, foi dormir senador e acordou em terceiro. Perdeu o pique na reta final, quando a desistência de Orestes Quércia e a interrupção de campanha de Romeu Tuma desviaram votos para o balaio de Aloysio Nunes.

Onda verde. É o correlato de marinar. A marola pró-ambiental tomou ares de tsunami, fez Marina Silva saltar de 13 milhões para 19,6 milhões de votos e nela naufragou o sonho de Lula de eleger Dilma Rousseff no primeiro turno.

Paulo Preto. Ex-diretor do Dersa que, na fase final da campanha, ajudou muito José Serra a não subir. Dilma tentou fazer dele uma "Erenice" tucana - com algum sucesso. Como tantas histórias de licitação ou concorrência, esta leva todo jeito de jamais ser esclarecida.

Poste. Nome da candidata Dilma Rousseff, quando não passava de um poste. Refletia a sua insignificância eleitoral. No fim, refletiu o poder de Lula de transformar uma insignificância em favorita.

Privatização. Pecado gravíssimo que José Serra era acusado de praticar. E que o PT, tendo em mãos alguns dos 185 milhões de celulares brasileiros, espalhava por todo lado.

Quebra de sigilo. Assunto sério demais para uma campanha não tão séria. No início, o escândalo da Receita no ABC tirou o sono dos petistas. Mas como o enredo ficou longo e confuso a audiência da novela não subiu. Ficou para a História a cândida pergunta de Lula no meio do tiroteio: "Que sigilo é esse que não aparece?"

Sustentabilidade. Da mesma família de "onda verde" e "marinar", foi uma cruzada imposta aos rivais pela candidatura Marina Silva. E que, tudo indica, não vai mais sair de cena.

Tergiversar. É a tradução, em dilmês, do que Serra chama de trololó.

Tiririca. Palhaço por profissão, Francisco Everardo Oliveira Silva foi o maior "hit" da campanha, com a frase "Pior do que está não fica". Com 1,3 milhão de votos, deu ao seu partido, o PR, créditos suficientes para enfiar na Câmara mais três deputados. Não há o menor indício de que o PR seja cobrado pela manobra.

Trololó. Conteúdo das críticas dos rivais, segundo Serra. Poderia usar "embromation" ou "enrolation". Mas iriam chamá-lo de arrogante.

Twitter. Foi o modismo eletrônico da vez, Atraiu políticos e militantes, saiu sempre na frente, distribuindo louvores e calúnias por igual. Seu grande momento foi quando Roberto Jefferson "precipitou-se" e contou antes da hora, no seu Twitter, que Álvaro Dias seria o vice de Serra. O DEM nada sabia, chiou e Serra teve de aceitar Índio da Costa como vice.

Weslian. A mulher de Joaquim Roriz virou candidata no Distrito Federal quando ele desistiu de concorrer. E provou, em sua breve campanha, que uma anticandidatura não precisa ser assunto sério, como sonhava Ulysses Guimarães em 1973.

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