Menina de 8 anos morre baleada por PM no interior do Maranhão

Moradores incendiaram delegacia de Igarapé do Meio em protesto; segundo testemunhas, policial estava bêbado

Wilson Lima, especial para O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2008 | 14h29

A estudante identificada como Cristiane, de 8 anos, morreu na tarde de domingo, 20, após ser baleada na cabeça por um policial militar, identificado apenas como soldado Ramos, na cidade de Igarapé do Meio (MA), a cerca de 330 quilômetros da capital. O crime revoltou a população do município. Em represália, os moradores de Igarapé do Meio incendiaram a delegacia e depredaram a Câmara de Vereadores local.   Segundo informações dos moradores da cidade de Igarapé do Meio, Ramos estava à paisana, ingerindo bebida alcoólica em um bar, quando foi informado de um esfaqueamento ocorrido durante uma briga entre duas pessoas em outro estabelecimento. Nesse instante, Ramos correu atrás dos dois elementos e quando chegou próximo a um rio, disparou cinco tiros, levado por provocações de um dos elementos.   A menina, filha de lavradores e moradora de uma casa de taipa (um tipo de barro sustentado por armações de madeira), brincava no quintal de casa, no outro lado do rio, a 100 metros da confusão, foi atingida acidentalmente por um desses tiros. "Foi tudo muito rápido", disse o lavrador Ivando Pereira da Silva, mostrando as cápsulas de balas que ficaram nas dunas próximas à casa da garota.   A menina ainda foi levada ao Hospital Regional de Santa Inês, mas não resistiu aos ferimentos e morreu na noite de domingo. O soldado Ramos, por sua vez, fugiu do local e está foragido desde então.    A morte da estudante indignou os moradores de Igarapé do Meio que resolveram depredar a Câmara de Vereadores da cidade e incendiaram a delegacia ainda na noite de domingo. Na delegacia, dez pessoas estavam presas. Todas fugiram e levaram três revólveres calibre 38. Até o momento, apenas três dos fugitivos foram recapturados e levados para a delegacia regional de Santa Inês.   A cidade de Igarapé do Meio não tem policial civil e apenas sete policiais militares, incluindo o soldado Ramos, fazem o policiamento ostensivo do município. Os outros seis policiais que estavam na cidade, com medo de serem linchados, também deixaram a cidade.   Indignação   No velório de Cristiane, lágrimas e dor e palavras de protesto contra a ação do policial militar. "Essa é a polícia que protege a população do meu Estado? Eu perdi metade do meu coração e parte da minha vida. Essa pessoa que vestia a farda da PM não é um policial, é um assassino. Ele não é digno da farda que vestia quando estava em serviço", disse, emocionado, o lavrador José Raimundo da Silva.   O pai de Cristiane, inclusive, precisou pedir dinheiro emprestado para amigos para pagar o funeral da filha. "Essa não é a primeira vez que a população daqui tem que engolir abusos de policiais. Muitos já foram espancados e ate agora ninguém dizia nada. Mas, depois disso, não temos mais como agüentar", declarou Maria Antônia Ribeiro, moradora de Igarapé do Meio.   O comandante Geral da Polícia Militar do Maranhão, coronel Pinheiro Filho, por meio da assessoria de imprensa da PM estadual, disse que somente iria se manifestar sobre o assunto depois que souber, oficialmente, o que aconteceu na cidade de Igarapé do Meio. Ele declarou que encaminhou dois oficiais da Polícia Militar de São Luís para a cidade para que fosse realizadas investigações sobre o caso.   Apesar disso, Pinheiro Filho declarou também que, caso seja comprovada a participação do militar no assassinato de Cristiane, o policial não ficará impune. A Secretaria de Segurança Cidadã (Sesec) informou também que encaminhou peritos da delegacia regional de Santa Inês para investigar o crime.   Violência policial   A morte de Cristiane de Sousa Silva, inclusive, foi o segundo crime acidental ocorrido por policiais da Polícia Militar do Maranhão em pouco mais de um ano. Em março de 2007, o cantor popular, Jeremias Pereira da Silva, conhecido como Gerô, foi espancado até a morte por dois soldados da Polícia Militar em um bairro periférico de São Luís.Na ocasião, os policiais disseram que confundiram Gerô com um traficante.   Uma semana depois, o comandante geral da Polícia Militar, coronel Pinheiro Filho, confirmou que o fato foi uma violência policial militar e que Jeremias nunca roubou e nem assaltou ninguém. Os dois policiais continuam presos e a família de Gerô foi indenizada com uma pensão vitalícia de R$ 1,5 mil.   (Com Solange Spigliatti, do estadao.com.br)   Atualizado às 22 horas

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