Menina que era torturada em Goiás volta a morar com pai

L. pediu ao juiz para viver com o pai; empresária que tinha guarda da garota foi condenada a 14 anos de prisão

Rubens Santos, especial para O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2009 | 18h50

A garota L., de 13 anos, está há quase um mês vivendo com o pai biológico em Trindade (GO), e pediu para deixar a família adotiva, com quem mora desde que a Polícia Civil descobriu que ela era torturada pela empresária Silvia Calabresi Lima e a empregada da casa. No momento da invasão policial, em 2008, L. estava acorrentada, amordaçada e com sinais visíveis de maus-tratos no corpo.

 

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Nove meses depois, o amor pelo pai biológico pode mudar o futuro dela. A menina deixou a família adotiva, há 22 dias em Belo Horizonte (MG), para passar as férias junto com o pai, Lourenço Rodrigues Ferreira, de 34 anos, no bairro Palmares. "O sangue que corre nas veias dele também corre nas minhas", garante ela, numa demonstração de afinidade com o pai. "Eu amo, vou ficar com ele e os meus dois irmãos".

 

O amor paternal cresceu e firmou, disse L., após as férias escolares no mês passado. "Passei uma parte das férias aqui no Palmares, com meus dois irmãos, meu pai e a mãe deles", relembra. "Gostei, pedi ao juiz pra ficar e ele aceitou", disse. Mais alta e bem arrumada, ela está agora no Ensino Fundamental. Levada pelo pai, percorre de ônibus 25 quilômetros - a distância entre a casa onde mora e a escola pública de Campinas, a cidade vizinha na divisa noroeste de Goiânia. "Fiz amizade com meus colegas, ganhei amigos, estou feliz", disse.

 

O desemprego e a pobreza são marcantes na cidade, e o pai de L. "descola o ganha-pão" produzindo e vendendo salgadinhos. Mesmo assim, no interior da casa onde mora a família vive ansiedade. Todos dividem espaços com a madrasta, Ilma Damásio Varanda, as longas conversas com os irmãos Leonardo e Lindomar, e visitas periódicas de Joana D'Arc da Silva, mãe biológica da garota. Acusada pela polícia de entregar a filha à empresária em troca de dinheiro,Joana foi absolvida pela Justiça por absoluta ausência de provas.

 

A adolescente sabe, no entanto, que pai e mãe disputam a sua guarda definitiva na Justiça. "Meu sonho é morar com a minha família", afirmou. "Queria ver a minha mãe livre e a gente se dá muito bem", defende. "A gente passou por uma prova, Deus permitiu tudo isso, mas o amor entre nós não acabou", comenta. "Bom, mesmo era morar todos juntos". Maurício Porfírio Rosa, o juiz titular do Juizado da Infância e Juventude de Goiânia, garante que não há impedimento para a menina ficar com o pai. "No momento, e para ela ficar em Goiânia, será preciso cancelar a guarda provisória da outra família", disse o juiz.

 

Para L. a questão está resolvida. O que não foi superado seria um desespero de alma que o tempo não apagou. "Eu tenho medo da Silvia", afirmou. "Tenho medo de ela me matar", comentou. A empresária foi condenada a 14 anos, 11 meses e 5 dias de reclusão, em regime fechado, por tortura. A empregada, Vanice Maria Novaes, foi condenada a sete anos. "Eu morro de medo dela", disse. "Olha, minha mão fica suada", revela. As duas estão presas.

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