Meninas são face esquecida das gangues da América Central

As meninas de gangue, a maioria menor de 18 anos, podem existir em maior número do que se imaginava

The New York Times,

11 de abril de 2008 | 19h32

Para aderir a uma das mais ferozes gangues da América Central, Benky, uma jovem miúda com muita maquiagem e tatuagens nos braços teve que ter releções sexuais com cerca de 12 dos meninos da gangue em uma noite. Ela se lembra de soluçando incontroladamente quando o último menino saiu de cima dela e todos a cercaram para parabenizá-la por sua entrada no Mara Salvatrucha.   O líder da gangue ordenou que Benky, com 14 anos na época, assaltasse ônibus, roubasse jóias e até matasse uma menina de uma gangue rival. Ela sempre acatou, embora diga não saber se a garota rival viveu ou morreu após levar um tiro seu pelas costas.   "Eu pensei que seriam como a minha família", disse Benky, sobre seu motivo para se juntar à gangue, perguntando se seu nome completo não seria usado. "Pensei que conseguiria o amor que me faltava. Mas eles me batiam. Eles mandavam em mim. Eles me diziam que eu deveria roubar alguém ou matar alguém, e eu fazia."   Quando ela tentou sair da gangue, os outros membros atiraram nela seis vezes. As cicatrizes são ainda visíveis em seu corpo, para confirmar a sua história.   Mesmo horrível, a história de Benky não é de todo incomum. Seu lamento é apenas um entre as muitas jovens mulheres em gangues na região e em entrevistas, muitas delas contaram histórias similares de iniciação sexual, espancamentos e obrigação de roubar e matar para conseguir seu lugar no grupo.   Novas evidências sugerem que meninas como Benky, a maioria de 18 anos ou menos, podem existir em maior número na América Central do que se imaginava anteriormente, muitas deles na fina linha entre serem vitimas e vitimarem outros. "Há muitas mais meninas e mulheres que qualquer um poderia imaginar", disse Ewa Werner-Dahlin, a diplomata sueca na Guatemala. "É uma surpresa para os especialistas e mostra que as autoridades têm reagido às gangues sem entendê-las."   O seu governo recentemente ajudou a financiar um estudo que incluía entrevistas com mais de mil membros ou ex-membros de gangues, homens e mulheres, na América Central. Descobriu-se que mulheres podem responder por cerca de 40% das gangues da região. Outros especialistas acreditam que esse número deva ser menor.   As gangues de rua da América Central, que espalharam uma rede de violência na Guatemala, El Salvador, Honduras e até Estados Unidos, têm número estimado de 100 mil membros. Entre eles, estão um pequeno número de gangues só para mulheres, dizem os especialistas. A realidade mais comum é a de Benky - poucas mulheres jovens entre muitos homens.   É o abuso em suas vidas domésticas que muitas vezes as leva às gangues em primeiro lugar, e essas gangues continuam abusando delas sob um véu de proteção. A gangue é sua família adotiva, diz uma mulher, e oferece uma mistura imprevisível de afeição e agressão.   "Se uma menina está sendo abusada por seu pai, a gangue vai fazer com que ele pare", disse Gustavo Cifuentes, um conhecedor das ruas e ex-membro de gangue com extensa ficha criminal, e que trabalha para o governo da Guatemala tentando levar membros de gangue a vidas melhores.   Membros de gangue afirmam que meninas têm um papel essencial, além do de parceiras sexuais, nos grupos por que podem se movimentar com mais facilidade pelas ruas, transportando drogas e armas.   Com quatro prisões em seu passado, Benky, 23 anos, está experimentando uma nova fase em sua vida, mas uma que está provando ser tão dura quanto as de antes. Suas marcas deixaram-na vagando pela vida, vendendo doces nos ônibus que costumava assaltar, por que suas tatuagens a desqualificam para a maior parte dos outros tipos de emprego.   A maior parte dos membros de sua gangue foi morta em tiroteios com a polícia, ela disse, mas um dos poucos ainda vivos a viu recentemente na rua e gritou para ameaçar sua vida. Ele ficou surpreso que ela tivesse sobrevivido à tentativa de assassinato.   "Parece tão bom quando se vê de fora", Benky disse, sobre por que se juntou à gangue. Para entender esse sentimento, ajuda saber que sua infância, como a de muitas meninas de gangues, foi difícil.   Ela começou a viver nas ruas aos 6 anos, com um irmão mais velho. Não sabe ao certo o que aconteceu com sua mãe, mas lembra que seu pai não tinha interesse em tomar conta deles. Seu irmão foi morto por um membro da gangue da rua 18, o que a levou a se juntar à Mara Salvatrucha, outra gangue da região, buscando amor e aceitação.   Benky conversou com meninas que já eram da gangue, que lhe disseram que tudo que ela deveria fazer era conversar com o líder da gangue e ele a apresentaria. Antes que ela soubesse o que estava acontecendo, os membros da gangue já a estavam despindo e fazendo fila para fazer sexo com ela. O abuso só parou quando ela começou a namorar um membro da gangue que a protegia dos outros. "Ele era muito gentil", ela disse. "Algumas vezes, assaltava ônibus só para me dar o que eu queria."   Outra menina de gangue, Ana, de 21 anos, que passou quatro anos na gangue da rua 18, disse que lhe deram a opção entre sexo ou espancamento em grupo, somente porque sua amiga era namorada do líder da gangue. "Outras meninas não tinham opção", ela disse.   "Eu pensei que o espancamento era melhor. Eu teria um olho roxo e me machucaria, mas pelo menos não ficaria grávida ou pegaria doenças."   Seus dias de gangue foram intensos, ela lembra, cheios de roubos e furtos e outros comportamentos que agora ela classifica como desvios.

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