''''Menino-Aranha'''' quer ser bombeiro quando crescer

Garoto que tirou bebê do meio das chamas vira celebridade em cidade do SC e recusa recompensas

Pablo Gomes, O Estadao de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 00h00

Riquelme Wesley dos Santos, de 5 anos, virou celebridade na pequena Palmeira, cidade de aproximadamente 2.500 habitantes, fundada há 12 anos e distante 40 quilômetros de Lages. Anteontem, a turma do pré-escolar 3 da Escola Municipal Antonieta Farias de Souza parecia simplesmente ignorar um assunto sobre o qual ele não parava de falar: como Homem-Aranha, havia resgatado um bebê de uma casa em chamas.Ninguém acreditava na história. Mesmo os professores imaginavam que tudo não passava de uma fantasia do menino, até que repórteres de todo o Estado começaram a aparecer no colégio. Riquelme terminou o dia sob aplausos dos 27 colegas de classe. Na manhã de ontem, recebeu abraços e elogios e foi fotografado por quem o encontrou na rua. E essas foram as únicas recompensas que aceitou.Depois que a casa inteira de São Sebastião, onde morava, pegou fogo, Lucilene Córdova dos Santos, de 36 anos, só pensou em dar R$ 50 para o vizinho fantasiado de herói que havia salvo sua filha. Ela lavava roupas nos fundos da casa e Andrieli dos Santos, de 1 ano e 10 meses, dormia no berço, no quarto da frente, quando começou o incêndio. Lucilene correu para salvar o bebê, mas se assustou com as grandes labaredas que saíam do quarto. Foi quando Riquelme resolveu agir. "Não chora tia, fica tranqüila que eu salvo a sua filha." Segundo depois, ele atravessou o fogo, entrou na casa, pegou a bebê pela perna e a levou até os braços da mãe. E tudo isso sem pensar duas vezes, porque "o Homem-Aranha não tem medo de nada".Lucilene, o marido, Andrieli e os três irmãos - de 4, 9 e 10 anos -, estão na casa de parentes, no Bairro Fátima, em Otacílio Costa. A nova casa será construída com a ajuda de um cunhado de Lucilene, proprietário de uma madeireira. Todas as roupas, os móveis, os eletrodomésticos e R$ 150 em dinheiro, que seriam utilizados para pagar a conta do mercado e a fatura de energia elétrica, foram consumidos pelo fogo. "Tentei recompensá-lo pelo que fez, pois o que são R$ 50 perto da vida da minha filha? Mas ele não aceitou. Esse menino é um anjo e, apesar de não ser meu filho, o considero muito mais que isso", afirmou a mãe de Andrieli.MÃERiquelme, aliás, não tem mãe: foi abandonado aos 11 meses de vida. Segundo os parentes, ela viajou ao Estado do Paraná com a justificativa de que iria buscar uma herança - e nunca mais apareceu. Com o pai, que mora em Balneário Camboriú, o garoto sempre mantém contato. Mas vive com a tia, a dona de casa Sandra dos Santos, de 22 anos. Ela conta que, desde que começou a falar, o sobrinho é fã do Homem-Aranha e que, por isso, ganhou de presente a fantasia.Ser o Homem-Aranha também era o que mais se ouvia entre tantas exclamações de crianças que corriam de um lado para o outro na escola, atrás do herói da turma. Mas não é de hoje que Riquelme pode ser considerado um aluno exemplar. Tem bom relacionamento com os colegas, espírito de liderança, gosta de ajudar, organiza o material da aula, a limpeza da sala, é participativo, dinâmico, espontâneo e, garantem as professoras, não sossega um minuto. "Arruma mais o material dos colegas do que o dele mesmo. Também é bastante observador, deve ser por esse espírito de solidariedade e atenção com os outros que arriscou a vida pela menina", diz a professora Carla Murara Werner.BOMBEIRORiquelme também já decidiu que vai trocar o uniforme de super-herói pelo de "herói" quando crescer: vai ser bombeiro. "Ele pediu aos soldados que deixassem uma mangueira aqui em casa, pois, quando houvesse um novo incêndio, ele apagaria", diz a tia Sandra, orgulhosa. Os bombeiros do município de Otacílio Costa também elogiaram Riquelme e admitiram que "ficaram ainda mais inspirados em salvar vidas", após o ato heróico.O soldado Eduardo Maciel Gonçalves, de 32 anos, foi um dos que estava de plantão na hora do incêndio. Ele e os colegas chegaram ao local menos de cinco minutos após o chamado, quando Riquelme já havia salvo a vida de Andrieli.Em 13 anos como bombeiro, Gonçalves não tinha conhecimento de outro caso semelhante, muito menos presenciou nenhum. O comandante do pelotão, sargento José de Macedo, fez questão de cumprimentar o menino pessoalmente. O sargento Oscar Debetio Júnior, chefe de socorro de Lages, destaca que resgates como o que Riquelme protagonizou devem ser feitos apenas em casos extremos. Mas caso o auxílio demore ou uma vida esteja em risco, a orientação básica ao socorrista é que se abaixe o máximo possível, ficando o mais perto que puder do chão, com um pano molhado no nariz. "E, como o Riquelme, é preciso ser muito rápido."

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