DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

‘Menino da cela’ volta à cidade dos humildes

Garoto achado com estuprador no Piauí retomará rotina: ‘Sabia que eu tô famoso?’

Felipe Resk, Enviado especial

07 Novembro 2017 | 03h00

Na entrada de Alto Longá, uma cidadezinha a 93 quilômetros de Teresina, no Piauí, a placa de boas-vindas é também uma pista sobre os 14 mil habitantes: “A cidade dos humildes”. Até ser mandado para um abrigo, era lá onde morava o garoto de 13 anos achado em uma prisão, às 2 horas, escondido embaixo da cama de um homem que cumpria pena por estupro de vulnerável. Um mês após o caso, o lugar viu a rotina virar de ponta-cabeça, mas agora se prepara para ter a criança de volta, no fim do ano.

Marcada pela paisagem campestre - com gente que se trata por “comadre” e “compadre” e, não raro, resolve conflito na base do facão -, Alto Longá é a cidade de Sebastiana da Silva Rodrigues, de 46 anos, e Gilmar Francisco Gomes, de 49, pais do garoto. Hoje, ele está preso por abandono de incapaz, constrangimento ilegal, e mais três crimes. Ela, indiciada pelos mesmos delitos, está em liberdade, mas sem a companhia de quatro dos seis filhos, afastados pela Justiça. Se condenados por todos os artigos, a Polícia Civil, que não conseguiu provar que houve estupro ou esquema de pedofilia, estima 8 anos de prisão.

Lavradores, os dois casaram no início dos anos 1990 e foram morar em uma casa de pau a pique. Primeiro, vieram três garotos. O mais novo morreu quando “Bastiana”, como é chamada, esperava uma menina, hoje com 15. Em Alto Longá, comenta-se que o menino tinha problema de coração, contraiu uma gripe e “sabem como é”. Depois, nasceram mais três rapazes, em escadinha: 13, 11 e 9 anos.

Após o caso, os quatro menores foram levados para um abrigo, que é mantido sob sigilo e coordenado por uma escola com uma das avaliações mais altas do Enem. Os mesmos professores da rede privada dão aula para as outras crianças. “Antes, Bastiana parecia uma galinha, com os pintinhos embaixo da asa”, contou a comadre Rosalina Passos, de 70 anos, a tia Rosa. “Agora, só faz chorar.”

No dia 27 de outubro, o Tribunal de Justiça do Piauí realizou uma audiência para discutir a situação das crianças. Os meninos chegaram a preparar as mochilas, pensando que iam voltar para casa. “Só quem não fez isso foi a maiorzinha, que já estava sabendo”, contou uma pessoa próxima da família. Foi a primeira vez, após o caso, que viram a mãe. “Eles pulavam no nosso braço, sem largar. Rolaram no chão de alegria.”

Com o processo sob segredo de Justiça, a juíza Maria Luíza de Moura Mello, da 1.ª Vara da Infância e Juventude, limitou-se a dizer que Sebastiana é uma pessoa “frágil, indefesa e pobre”. “Olha, eu falo e me arrepio”, afirmou, levantando a manga da camisa. Segundo presentes, a guarda só não foi devolvida porque ela está vivendo de favor.

Na audiência, se decidiu que as crianças devem ficar, provisoriamente, sob tutela da chamada “família extensa”, grupo de pessoas que possuem vínculos com os jovens. Mas só vão voltar para Alto Longá quando acabar o ano letivo. Motivo: os meninos estão bem na escola, depois de vários dias sem conseguir nem falar, e uma nova mudança poderia ser pior, avaliaram. À psicóloga, o menino de 13 anos até comentou: “Sabia que eu tô famoso?”.

Analfabeta, assim como 36% dos habitantes de Alto Longá, Bastiana assinou a ata da audiência com o dedão. “Ela é uma pessoa ‘natural’, não sabe? É como se fosse uma selvagem. Não conhece nada, não sabe nem quanto vale dinheiro; o marido é quem manda em tudo. Para ela, do jeito que tá, tá bom”, resumiu um amigo.

Em uma casa sem forro no teto, Marcos Luciano Gomes, de 30 anos, amigo e vizinho da família, além de conselheiro tutelar do município, se prepara para receber a mais velha e o caçula, como decidiu a Justiça. “Estamos todos esperando para abraçar essas crianças e fazer o acolhimento”, disse Gomes, que já deixou uma cama e uma rede prontas para os garotos. “Foi o quarto onde eu cresci”, contou. “Aqui, todo mundo não vê a hora que os meninos vão voltar.” Na prática, vão ficar do lado da mãe.

Medo. A Justiça também determinou o afastamento de Gilmar, caso receba liberdade, por histórico de violência doméstica e alcoolismo. “Ela diz que nunca teve agressão, mas a gente vê marca no braço, olho roxo, não sabe?”, contou um vizinho. A tia Rosa até comentou: “A bichinha morre de medo que ele apareça por aqui. Está apavorada!”.

Na cidade, Gilmar é descrito como “trabalhador”, mas “sem respeito”. “É do tipo que chega gritando com a família ou entra na igreja sem camisa”, contaram numa roda de conversa. O aposentado Francisco Santana, 75 anos, aproveitou a deixa. “E só vivia bêbado”, disse.

As histórias de Gilmar são muitas. Um exemplo: certa vez, foi buscar um dos filhos na casa de uma idosa - e a senhora pediu: “Ah, por favor, não leva meu bichinho agora”. Sem dizer palavra, ele amarrou a própria camisa na barra do vestido da velhinha, Lá, o gesto é interpretado como um convite para que o conflito se resolva no tapa.

Outro: a primeira vez que Bastiana deu à luz foi dentro de casa, há 21 anos. Em meio aos trabalhos, a parteira chamou Gilmar e passou-lhe um sermão: “Onde já se viu homem não deixar uma mulher se depilar?! Pois vá agora comprar um barbeador, que ela não é bicho, não!”.

Filho de pescador, Gilmar saía cedo e voltava com os peixes para Bastiana tratar, enquanto também cuidava do terreiro e das crianças. Em 2012, ia para a Barragem dos Corredores, em Campo Maior, a 50 quilômetros de Alto Longá. Um dia, passou na casa de uma comadre para chamar a filha dela, de 12 anos. O Ministério Público diz que ele tentou convencer a menina a fazer “carícias íntimas” e até ofereceu R$ 10. A vítima disse não. À força, a carregou para um matagal e foi condenado a uma pena de 10 anos.

Com depressão, a menina contraiu meningite e foi enterrada aos 15, no ano passado. O caixão chegou lacrado, com uma plaquinha alertando sobre o risco de transmissão da doença, mas o aviso acabou mal interpretado pelos moradores. “Quando a gente leu é que soube o que a pobrezinha tinha de verdade”, disse um dos presentes no velório. Na lógica de Alto Longá, estava claro. Se morreu de meningite e havia risco de contágio: “Só podia ser aids”.

Na época, Bastiana decidiu apoiar o marido. Isso mudou depois de ter sido afastada dos filhos, diz a tia Rosa. “Parece que deu um estalo nela: não quer mais nada com ele.”

Com a repercussão, moradores de Alto Longá passaram a evitar o assunto. Quando veem pessoas estranhas, cercam e fazem perguntas. Muitos se empenham para manter em segredo a maloca de dois cômodos, sem banheiro ou energia, onde Sebastiana recebeu abrigo. “Tô proibida de falar”, disse a mãe das crianças, ao ser abordada. Lá de dentro, surgiu uma tia, esbaforida, fazendo força para levantar uma tábua com as duas mãos: “Vai embora, urubu! Ô, venha para cá que eu rebolo essa ripa na sua cabeça!”. É com essa tia que vão ficar os outros dois meninos.

Sistema paralelo. Naquela madrugada, o agente penitenciário levantou o colchão do preso e, para espanto geral, nada de droga ou arma. “Meu Deus, olha só o que eu encontrei!”, gritou, ao flagrar, durante uma revista surpresa, o garoto escondido na Colônia Agrícola Major César Oliveira. Voltada ao regime semiaberto, a unidade fica à beira da BR-343, em Altos, mas na divisa com Teresina.

Às pressas, outro agente tirou o celular e - clique! -, fez o retrato que ganhou repercussão internacional, expondo a precariedade do sistema penitenciário brasileiro. Na foto, dava para ver: o garoto, assustado, encolhido sob o gradil, com a barriga de fora e de short jeans. O que não dava para ver: um garoto da roça, analfabeto, que ajudava os pais na lavoura (e, suspeita-se, em uma carvoaria rural), e tinha pela primeira vez, em meio a carcereiros, a atenção de tantos olhos.

“Já vi preso matar o outro a estocadas na minha frente, mas nunca algo tinha mexido tanto comigo. Uma criança, pô”, desabafou um dos membros da equipe de plantão, responsável pelo flagrante. O agente conta que puxou o moleque de canto e arriscou um papo de futebol para acalmá-lo. Só depois, diz, foram “assuntar”. “Como você veio parar aqui?”

Mais calmo, o menino disse que foi visitar o homem, amigos da família, à tarde, com os pais e três irmãos. Na hora de ir embora, Gilmar, que estava de bicicleta, deu ordem para ele dormir ali. Também disse que não era a primeira vez - a diferença é que, antes, a família inteira tinha ficado. Ficou lá assistindo à história de Jesus Cristo no DVD. Em nenhum momento, o preso pediu para tocá-lo, nem fez nada.

Como foi noticiado, o homem era José Ribamar Pereira Lima, de 51 anos, preso por estupros (no plural), entre eles o de um garoto de 4 anos. Apesar de estar em liberdade havia cinco meses, Gilmar, condenado pelo mesmo crime, continuava trabalhando na horta da Major César, onde os dois se conheceram e viraram amigos. O pai do menino até convidou o compadre para participar do batizado dos filhos este ano (o preso teve de viajar mais de 40 quilômetros para comparecer).

Onde acharam o garoto não é exatamente uma cela, mas a casa que antes abrigava o diretor da unidade, perto da horta, onde se planta feijão, alface, cheiro verde. O lugar é separado da carceragem comum por um caminho de terra. Na área, as cercas são de arame, fáceis de passar, e não há controle de acesso. O Estado chegou ao local, sem passar por fiscalização. Saiu por ordem dos presos.

O sindicato dos agentes penitenciários do Piauí denunciou um “sistema paralelo” na Major César. “Eram 24 presos com privilégios, os chamados de ‘confiança’”, disse José Roberto Pereira, presidente do Sinpoljuspi. Entre eles, haveria um ex-prefeito, advogados, Ribamar, além de outros seis acusados de estupro. “Comparado ao resto da unidade (que tem classificação ‘péssima’ do CNJ), era um hotel 5 estrelas”, descreveu um agente da unidade.

Na semana passada, uma Hilux (de um preso, segundo funcionários) estava estacionada do lado da antiga casa do diretor. Em nota, a Secretaria de Justiça do Piauí diz não existir “sistema paralelo”. “Todos os detentos são submetidos aos mesmos procedimentos carcerários.” Sobre o carro de luxo, afirma que está “sob investigação”.

Em meio à polêmica, o governo do Piauí iniciou uma reforma no local, transferindo os presos de lá e arrancando o telhado da casa. Inicialmente, Ribamar foi levada para a solitária e, após a Polícia Civil pedir sua prisão preventiva, para uma unidade prisional de regime fechado.

Uma sindicância também foi instaurada para apurar se houve omissão no controle de acesso, além do responsável por divulgar a imagem da criança. Doze agentes penitenciários foram afastados. Incluindo toda a equipe que fez o flagrante, conforme também virou notícia.

Já o menino, torcedor do Flamengo, embora não saiba ler, estava matriculado no 5.º ano da Francisco Pereira de Magalhães, uma escola municipal de Alto Longá. A diretora até se queixou que o aluno andava faltando muito, antes do ocorrido, para ajudar na lavoura. Ninguém deu muita importância às queixas.

Pobre. Menos de 20 dias antes do caso, a família havia alugado - R$ 150, o mês - dois quartos no Mucuim, um povoado rural de Teresina, que fica do outro lado da BR. Como plantava e colhia na Major César, Gilmar quis morar mais perto da unidade penal. “Eles são um pessoal trabalhador, viu?! Acordam cedo para varrer, vão para roça, apanham castanha no chão”, disse a lavradora Francisca da Silva, de 59 anos, a dona Nenzinha, proprietária da casa. “Era direto ele andando por aqui de bicicleta, com um cestinha atrás, vendendo as coisas da horta”, contou a dona de um barzinho.

No dia do caso, mandaram buscar os pais, pegaram o preso e a criança, e levaram todos para a Central de Flagrantes de Teresina, fazer exame de corpo e de delito. “A polícia chegou batendo porta, levaram o pai algemado”, contou dona Nenzinha, proprietária da casa. “A mãe, uma coitada, tinha voltado do presídio sem o menino, sentou no batente e começou a chorar. Fazer o quê? Eu sentei do lado e chorei junto.”

Como a perícia constatou que não houve relação sexual, o delegado plantonista achou ok liberar todo mundo.  Daí, vieram as notícias nos jornais e, com elas, a polícia de novo. “A gente ficou com medo depois que contaram que o pai era estuprador. Tem muita criança pequena aqui em casa, a gente ia deixar perto?!”, disse dona Nenzinha, que, assustada, decidiu despejar a família.

Chorando, a lavradora completou. “Eu me arrependo, viu?! Se eu soubesse que ele ia ficar preso, não tinha mandado a pobrezinha embora”, disse. Outra moradora da casa também quis justificar a decisão de mandá-los sair: “Ele dizia que tinha sido preso porque acabou matando outro rapaz numa briga de bar”.

Titular da delegacia de Alto, o delegado Jarbas Lima acabou herdando o inquérito, instaurado no dia seguinte. “A nossa primeira preocupação foi saber se, de fato, houve ou não o estupro tanto com o menor quanto com os irmãos dele”, afirmou.

Em um mês de investigação, colheu depoimento de 15 testemunhas e da vítima, além de interrogar o pai, a mãe e Ribamar. Já nos primeiros dias, pediu a prisão preventiva de todos - o que a Justiça aceitou para o caso dos dois homens e negou a de Sebastiana.

Inicialmente, Gilmar foi preso na carceragem da delegacia, onde só há duas celas - ambas emboloradas do chão ao teto. Lá, o pai ficou junto com um rapaz suspeito de praticar uma série de cinco assaltos em uma noite, que terminou com a morte do comparsa em um tiroteio com a Polícia Militar do Piauí. Isolado na cela do lado, havia um preso que deu uma paulada na cabeça da mãe.

Na delegacia, os policiais relatam que não há entrega de marmita para os presos e, muitas vezes, são os próprios agentes que fazem vaquinha para pagar comida para os que não têm apoio familiar. Em relação a Gilmar, o delegado lembra de a família ter mandado, uma vez, um prato de arroz e algumas cabeças de peixe. “Estamos falando de gente muito, muito pobre.”

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