Menino de 11 anos agradece em rede social a juiz que deixou mãe 'morrer com dignidade'

Presa reincidente por furto, Raquel Gentil, de 33 anos, estava internada em Joinville em decorrência de complicações provocadas pela aids; tinha toxoplasmose e metade do corpo paralisado

FABIO VENDRAME, ESPECIAL PARA O ESTADO

15 de abril de 2015 | 21h35

FLORIANÓPOLIS - O juiz João Marcos Buch, de Joinville, norte de Santa Catarina, tem ainda mais motivos para acreditar que "trabalhar com execução penal é trabalhar com o drama diário de vida das pessoas", como disse por telefone nesta quarta-feira, 15, ao Estado, depois que as palavras de agradecimento do filho de uma detenta se tornaram públicas. Rômulo, de 11 anos, escreveu ao magistrado por meio de uma rede social: "(...) Eu tava segurando a mão da minha vó quando ela foi na sua sala pedir para aquelas moças que alguém fizesse alguma coisa pra minha mãe morrer com dignidade e o senhor fez. Também sou soropositivo, essa escolha não fui eu quem fez, mas tenho direito às próximas. E desde já quero ser um homem honesto". Também pela rede social, o juiz respondeu: "Vc é um menino muito inteligente".

Presa reincidente por furto, Raquel Gentil, de 33 anos, estava internada em um hospital de Joinville em decorrência de complicações provocadas pela aids. Apresentava toxoplasmose e tinha metade do corpo paralisada por causa de uma lesão cerebral, mas se mantinha consciente. A avó paterna pegou Rômulo pela mão e foi bater na porta do juiz para pedir que ela pudesse "passar os últimos dias em casa, com dignidade".

"Fui visitá-la no hospital e, apesar de todo o quadro da lesão cerebral e da paralisia, ela estava algemada pelo tornozelo. Apesar de ser o procedimento correto, aquilo não fazia sentido por causa da situação em que a detenta se encontrava. Conversei com a médica e fiquei sabendo que se tratava de uma situação delicadíssima. Por uma questão humanitária, acatei o pedido e a liberei para cumprir o restante da pena em casa", contou Buch ao Estado.

Raquel teria de regressar ao presídio regional de Joinville quando tivesse alta do hospital. No entanto, graças à decisão de Buch, passou seus últimos dias em casa. Ela esteve por quase um mês na companhia de sua família - foi para casa no fim de fevereiro e morreu no dia 25 de março.

Além de Rômulo, deixou também outro filho, caçula, de 9 anos. Ambos devem ficar sob os cuidados da avó paterna. "Cada caso é um caso e precisa ser analisado com cuidado", afirma Buch, que tem 20 anos de magistrado, metade dedicado a execuções penais. "O juiz pode continuar recebendo notícias de egressos do sistema prisional e acompanhar como se dá sua vida depois de cumprir pena", defende. "É preciso compreender que os presos também são seres humanos e um dia podem retornar ao convívio social."

Acostumado a manter contato com ex-infratores e seus familiares por meio de seu perfil profissional na internet, Buch revela que ficou emocionado ao saber do desfecho da história. "A mensagem que ele deixou me sensibilizou bastante pelo fato de ele ter 11 anos e tanta maturidade. Deveria estar brincando e não sofrendo dessa maneira", diz Buch, que noutra ocasião recebeu também via internet um rap gravado pela filha de um ex-detento. "É muito importante o juiz ter sensibilidade e ir averiguar o que aquele papel está dizendo para ele. Esse papel representa uma vida que está sendo julgada."

A seguir, leia a íntegra do recado deixado por Rômulo ao juiz João Marcos Buch:

"Olá, senhor juiz. Minha avó disse que eu podia deixar um recado aqui, que o senhor ia ver. Tenho 11 anos e sou filho da Raquel. Sei que o senhor vai lembrar, sou neto da Roseli e só queria agradecer ao senhor. Cresci vendo meus pais fazendo coisa errada e sendo presos. Por muitas vezes entrei na prisão para visitar meu pai ou minha mãe. Por muitas vezes vi eles ganharem a liberdade e novamente serem presos. Mas hoje esse é um passado que não faz mais parte do meu presente. Quis Deus que meu pai saísse da prisão em dezembro, de condicional e fosse trabalhar. Minha mãe, quis Deus que ela ficasse bem doente e o senhor foi lá soltar. Eu tava segurando a mão da minha vó quando ela foi na sua sala pedir para aquelas moças que alguém fizesse alguma coisa pra minha mãe morrer com dignidade e o senhor fez. Também sou soropositivo, essa escolha não fui eu quem fez, mas tenho direito às próximas. E desde já quero ser um homem honesto. Obrigado, senhor juiz João Marcos."

Mais conteúdo sobre:
Santa CatarinaJoinville

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.