Menor diz que foi pago para acusar traficante de assassinar Amarildo

Testemunha afirma que ex-comandante de UPP prometeu pagar aluguel para denunciar tráfico

Marcelo Gomes, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2013 | 22h58

RIO - Duas testemunhas ouvidas entre a noite da última quarta-feira, 11, e a madrugada seguinte na Divisão de Homicídios (DH) afirmaram que foram compradas pelo major Edson Santos, ex-comandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, para que acusassem traficantes da favela de terem assassinado Amarildo Souza, de 43 anos. Ele está desaparecido desde 14 de julho, após ter sido levado por PMs à UPP.

Um policial civil também foi acusado pela dupla de fazer parte do plano. O inspetor era lotado na 15ª DP (Gávea) e participou do inquérito que resultou na Operação Paz Armada. Desencadeada na véspera do sumiço de Amarildo, a operação prendeu naquele dia mais de 30 suspeitos de ligação com o tráfico na Rocinha.

As duas testemunhas ouvidas na DH são uma mulher e seu filho, de 16 anos, ambos moradores da Rocinha. As declarações foram feitas na presença dos delegados Rivaldo Barbosa, da DH, e Orlando Zaccone, da 15ª DP, e dos promotores Homero das Neves e Marisa Paiva.

O rapaz estava internado no Hospital Municipal Miguel Couto desde 25 de maio, quando foi atingido na perna por um tiro de fuzil disparado por PMs da UPP Rocinha. Ele teve alta na última quarta-feira, quando decidiu mudar sua versão sobre o sumiço de Amarildo. As informações foram confirmadas por sua mãe na DH.

Pouco tempo antes de ter sido baleado, o adolescente foi levado à 15ª DP, acusado de furtar o celular de um motorista de van na Rocinha. O menor disse em seu depoimento na DH que um inspetor da 15ª DP lhe propôs um acordo: não abriria o registro de ocorrência de furto, se o menor topasse identificar traficantes da Rocinha através de fotos no Facebook. Na ocasião, a 15ª DP já tinha inquérito sobre o tráfico na Rocinha, que resultou na Paz Armada. O adolescente topou. Como recompensa, o inspetor teria lhe dado R$ 100.

Segundo o menor, no dia em que foi alvejado, ele estava na garupa de um mototáxi na Rocinha, com um cigarro de maconha. Ao avistar uma blitz da PM, pediu para o piloto parar, desceu da moto e tentou fugir correndo. Os PMs atiraram e o feriram na perna. Em depoimento na delegacia, os PMs disseram que apreenderam uma arma com o menor. Ele responde a processo na Vara da Infância e Juventude.

Enquanto o adolescente permanecia internado, Amarildo desapareceu. Segundo seu depoimento na DH, dias após o sumiço, o mesmo inspetor da 15ª DP esteve no hospital para visitá-lo. O policial civil teria lhe dado R$ 150, e prometeu presenteá-lo com um iPhone e um par de tênis de marca para ele dizer em depoimento que Amarildo havia sido assassinado pelo traficante Catatau.

Ainda de acordo com o rapaz, dias depois, o major Edson Santos também foi visitá-lo no hospital. O oficial teria dito que os traficantes da Rocinha estavam querendo matá-lo, pois haviam descoberto que ele ajudara a 15ª DP na investigação da Operação Paz Armada. O major, então, teria oferecido pagar R$ 500 por mês para o menor e sua mãe alugaram uma casa fora da Rocinha. Em troca, o jovem e sua mãe deveriam prestar depoimento à Auditoria Militar do Ministério Público, acusando Catatau pela morte de Amarildo.

E assim foi feito. A mãe do rapaz foi levada à sede do MP pelo próprio major Edson Santos. Ela foi ouvida pelo promotor Paulo Roberto Mello. A auditoria fiscaliza o inquérito policial militar (IPM) aberto pela Corregedoria da Polícia Militar para apurar o sumiço de Amarildo. Já o menor foi ouvido no hospital.

A promessa feita pelo inspetor da 15ª DP de presenteá-lo em troca do depoimento não foi cumprida. Revoltado, o rapaz decidiu contar à polícia o que houve depois que tivesse alta hospitalar.

Ao ter alta na última quarta-feira, por exigência da Justiça, o rapaz deveria ter sido levado por PMs que o escoltavam à 14ª DP (Leblon). Ele deveria prestar depoimento no processo em que foi acusado por PMs da UPP de portar uma arma. No entanto, os policiais se confundiram e acabaram conduzindo o menor à 15ª DP. Como ele já havia estado na delegacia anteriormente, uma inspetora o reconheceu e acionou o delegado titular, Orlando Zaccone. Foi quando o rapaz mudou sua versão no IPM.

Como o inquérito que apura a morte de Amarildo está na Divisão de Homicídios, Zaccone decidiu levá-lo até lá. Dois promotores foram acionados. A mãe do rapaz foi chamada. A mulher também disse que, em vez dos R$ 500 prometidos, o major Edson Santos teria pago apenas R$ 350.

Outro lado. A reportagem do Estado telefonou para o major Edson Santos e deixou recado em sua caixa postal, mas ele não havia retornado até o fechamento desta edição. O oficial foi transferido semana passada do comando da UPP Rocinha para o Batalhão de Operações Especiais (Bope).

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