Menores confirmam torturas na Febem

Torturas e espancamentos praticados por coordenadores e monitores da Febem não são casos isolados. "Tornaram-se rotina e, constantemente, menores infratores apanham com correntes, cabos de enxada e barras de ferro", denunciou nesta quinta-feira o promotor de Justiça da Infância e da Adolescência, Ebenézer Salgado Soares, após ouvir o depoimento de dois adolescentes internados vítimas dessa violência na unidade de Parelheiros, na zona sul de São Paulo. "Os motivos das agressões são os mais fúteis, como pedir água ou esquecer de dizer ´senhor´ cada vez que falam com um funcionário, principalmente nas unidades de Parelheiros e de Franco da Rocha", afirmou Soares.Exibindo marcas de espancamento nas pernas, costas e cabeça, A. e B. ambos de 19 anos, estavam preocupados em revelar como foram agredidos. "Nos disseram para tomar cuidado, senão íamos para Franco da Rocha, onde dois coordenadores que bateram na gente trabalham agora", disse A. "Poderíamos até ser mortos lá", acredita B.Cada frase dos garotos vem acompanhada da palavra "senhor", mesmo quando falavam com jornalistas e promotores, como um reflexo da exigência dos funcionários. A. contou que funcionários o espancaram, alegando que havia maconha escondida na cela que ele ocupava com outros quatro menores. A droga, entretanto, não foi encontrada. "Na Febem não tem conversa; é só pancadaria", disse. "Eu e mais dois tomamos correntadas nas costas e pauladas nas pernas e cabeça", contou. "Sei que errei, estou aqui para ser recuperado. Mas essa violência gratuita deixa a gente mais revoltada."Para B., a Febem não recupera ninguém. "Quero ser decente e trabalhador, mas na Febem não consigo fazer nenhum curso profissionalizante. Sou de família pobre que não tem condição de oferecer um bom estudo para a gente." "Nenhum dos infratores internados na Febem é anjo", afirmou Soares. "Não queremos que fiquem alojados em hotéis cinco estrelas, mas é preciso ter respeito à condição humana e tentar recuperar esses jovens para a sociedade."A assessoria da Febem informou que a fundação "não compactua com nenhum tipo de violência e tortura". Segundo a assessoria, "assim que a direção foi notificada das denúncias, fez uma apuração rápida que resultou hoje na demissão, por justa causa, de cinco acusados de tortura. Inclusive os dois coordenadores que agrediram A. e B".

Agencia Estado,

09 de maio de 2002 | 22h40

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