Menos dinheiro, mais criatividade

Carnaval carioca começa hoje com apenas uma escola de samba com enredo patrocinado: a Grande Rio

Márcia Vieira e Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

22 Fevereiro 2009 | 00h00

Diferentemente dos desfiles dos últimos cinco anos, quando as escolas do Rio recorreram a enredos patrocinados para aumentar verbas e garantir apresentações luxuosas, o carnaval de 2009 assiste ao encolhimento de financiamentos. Nas apresentações de hoje, a partir de 21 horas, e de amanhã, apenas a Grande Rio tem patrocínio. Empresas francesas, organizadas pelo executivo Alexis de Vaulx, despejaram R$ 8 milhões em troca de homenagem na Sapucaí ao Ano da França no Brasil. No ritmo dos patrocínios, o carnaval carioca viu a Mangueira homenagear o frevo, num desfile bancado pela prefeitura do Recife; a Grande Rio enaltecer a história da mineração, com apoio da Vale do Rio Doce; e a Unidos de Vila Isabel cantar a latinidade, após receber US$ 1 milhão da Petróleos de Venezuela (PDVSA). Neste ano, a falta de compromisso com empresas ou prefeituras, no entanto, ajudou a soltar a criatividade. Os enredos estão mais originais. A campeã Beija-Flor, que no ano passado cantou as maravilhas de Macapaba em troca do patrocínio da prefeitura de Macapá e do governo do Amapá, neste ano escolheu um enredo sobre o banho. No quesito originalidade de enredo, o Salgueiro é campeão - Renato Lage montou todo o desfile em cima do tambor. A Unidos da Tijuca também ousa, com Uma odisseia sobre o espaço. Patrocínio, porém, dá tranquilidade na hora de montar os carros alegóricos. Para as empresas, garante prestígio. "O patrocínio não bota dinheiro onde não vai ter retorno", disse o presidente da Grande Rio, Hélio Oliveira. Com Voilà, Caxias! Para sempre liberté, egalité, fraternité, merci beaucoup, Brésil! Não tem de quê, a escola tenta o primeiro título. Há expectativa de um desfile luxuoso, com destaque para o carro do Moulin Rouge, com 32 bailarinos de Paris. Em algumas escolas, a falta de patrocínio pode comprometer a qualidade. A Unidos do Viradouro, que mistura no seu enredo Bahia e biocombustíveis, contava com a verba de R$ 7 milhões da Petrobrás. Com a crise, o patrocínio dançou. O carnavalesco Milton Cunha, no início do ano, teve de decidir se comprava tecido ou plumas. As 2 toneladas de plumas só chegaram em fevereiro. Cunha teve de abrir mão de mecanismos para movimentar alegorias e usar materiais baratos. Ele está confiante - não dá ouvidos aos boatos de que a Viradouro será rebaixada. "Boataria e baixaria fazem parte do jogo." O jogo começa hoje, com a Império Serrano, que provavelmente terá o samba mais cantado. Lenda das sereias, rainha do mar é o samba-enredo de 1976. Foi sucesso nas gravações de Clara Nunes e Marisa Monte. A Vila Isabel, uma das favoritas, chega à passarela sem alas comerciais. Todas as fantasias foram bancadas pela escola e entregues à comunidade. São pessoas que cantam o samba o tempo inteiro e dançam sem parar. Dois quesitos fundamentais para quem sonha com o título. À escola de Martinho da Vila também não faltou dinheiro para contar a história do Teatro Municipal do Rio. Outro trunfo da Vila é juntar dois profissionais de estilos diferentes: Alex de Souza, mais tradicional, e Paulo Barros, um dos mais ousados do carnaval. Na Mocidade Independente, vale a pena observar o carro do escorpião gigante no corpo de um jagunço. Logo depois, entra a Beija-Flor e aí o sambódromo deve viver um dos momentos mais emocionantes. Neguinho, puxador do samba há 33 anos, luta contra um câncer de intestino e por pouco não pôde desfilar. Ele anunciou que vai casar na avenida, antes do desfile. A Unidos da Tijuca encerra a primeira noite com uma odisseia sobre o espaço. O abre-alas vai trazer o símbolo da escola, a cauda do pavão. Só que ela será criada ali numa coreografia com 80 componentes. Um toque de ousadia para fechar o primeiro dia de desfiles. Amanhã tem mais.

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