Mercadante quer criar BNDES paulista

Entrevista. Mercadante e os jornalista Adriana Carranca e Daniel Bramatti, no auditório do Grupo Estado: imagem vinculada à do presidente Lula    

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2010 | 00h00

 

 

 

 

 

 

Aloizio Mercadante, candidato petista ao governo do Estado de São Paulo, voltou a condenar a venda da Nossa Caixa e a privatização do Banespa pela gestão tucana, durante a sabatina promovida pelo Grupo Estado. "Quero criar um BNDESP", afirmou o senador, referindo-se ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Em encontro realizado no auditório do Estado, com mediação de Roberto Godoy e participação dos jornalistas Roberto Fonseca, Daniel Bramatti e Adriana Carranca, Mercadante vinculou insistentemente sua imagem à do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - questionando a ausência de Fernando Henrique Cardoso no programa do adversário tucano, Geraldo Alckmin. Criticou os dezesseis anos de governo do PSDB no Estado em todas as áreas de atuação, especialmente, na educação. "Eles privatizaram a qualidade do ensino", acusou.

Outro ataque recorrente, aos pedágios das estradas paulistas, reapareceu na entrevista, acrescido da forma como Mercadante pretende baixar as tarifas. "Temos de renegociar os contratos com as concessionárias, prorrogá-los se necessário. A contrapartida da prorrogação é a redução dos preços."

Ao privatizar o Banespa e vender a Nossa Caixa, perdemos instrumentos de fomento da economia do interior de São Paulo. Quero criar um BNDESP. Temos de ter um banco de fomento no Estado. Os tucanos falam que têm uma agência de fomento, mas é completamente insignificante para o tamanho de São Paulo. O Banespa era um grande instrumento. E o mundo, depois da crise, olha para os bancos públicos de outra forma. Se não tivéssemos o BNDES, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil atuando na crise, não teríamos dado a resposta espetacular que demos. A agência de fomento é capitalizada só com recursos orçamentários hoje, é pouco. Temos novas engenharias de financiamento, podem-se capitalizar recursos no mercado, pode-se criar uma equipe que prepare bons projetos para financiamento. Se tivermos um banco de fomento, podemos disputar recursos no Banco Mundial, no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), no mercado internacional e ajudar a alavancar o investimento. Porque, pelo mercado, os investimentos vão se concentrar cada vez mais na Grande São Paulo ou em Campinas. Como levar investimento para o interior, sem incentivo fiscal e financiamento?

Nesses 16 anos, houve uma perda de qualidade na educação, há boas escolas para pouco mais de 10% dos alunos, não chega a isso. Privatizaram a qualidade do ensino. Quem pode pagar continua tendo ensino de qualidade. Mas só quem pode pagar. No último Enem, a escola pública de São Paulo mais bem classificada ficou em 2.583º lugar. Metade dos professores não tem concurso, não tem carreira. Não tem projeto para o profissional, não tem estabilidade pedagógica. Tem de dar um laptop para cada professor. O que custa num orçamento de R$ 30 bilhões da educação dar um laptop para cada professor? E, futuramente, um laptop para cada aluno da rede pública? Quero ser um governador avaliado pela qualidade do ensino nas escolas. Eu não pus meus filhos na escola pública, mas a oportunidade que eu pude dar a eles a maioria do povo não tem.

A progressão continuada é um conceito pedagógico generoso, o aluno passa sem saber. Vai ser reprovado na vida e no mercado de trabalho. A escola precisa exigir. A progressão continuada nunca foi aprovação automática. Quero trazer o sistema do cartão "chipado": quando o aluno entra na sala de aula, fica registrada a presença. Se o professor tem um laptop, é automático. O estudante não veio à aula, o pai recebe uma mensagem no celular. Na avaliação tem de haver duas coisas: o que ele aprendeu e o esforço que fez para aprender.

Esse governo cria um pedágio a cada 40 dias, isso prejudica muito, especialmente o interior. Temos de renegociar esses contratos, prorrogá-los se necessário, e a médio prazo lançar uma nova política. O contrato tem uma cláusula que se chama equilíbrio econômico e financeiro, que pode ser acionada tanto pelo poder público quanto pela empresa. É inegável que o volume de tráfego nas estradas é excepcional, o PSDB sucateou as ferrovias. Uma das razões do esvaziamento econômico do interior é o abuso dos pedágios, que impede a competitividade. A cláusula de equilíbrio econômico permite acionar a renegociação do contrato. A minha proposta é negociação. Na prorrogação de contrato, a contrapartida é a redução da tarifa. A médio prazo, o consumidor vai pagar pelo quilômetro rodado. Na Europa e no Chile, é assim. Se todos pagarem o que foi efetivamente rodado, a tarifa cai. A questão do médio prazo será resolvida com tecnologia. E as empresas não vão criar dificuldade. Governamos sete anos e meio respeitando os contratos.

Os homicídios diminuíram, por dois motivos: o Estatuto do Desarmamento e a melhora sócio-econômica de todo o Brasil. Mesmo assim, no ano passado, os homicídios aumentaram 16% no interior de São Paulo. Aumentaram também roubos de carga, sequestros, furtos, assaltos. Isso tudo com as estatísticas subestimadas. Em São Mateus, periferia de São Paulo, que tem 400 mil habitantes, há apenas um escrivão na delegacia. O pessoal chama ele de "escravão". Tem de mudar a metodologia de registro das estatísticas, colocar um portal na internet. Vou dar publicidade aos dados de violência de São Paulo, o Infocrim (mapa dos crimes do Estado informatizado). Abrir os dados para a população, como Londres fez. É incômodo para o governo, mas é preciso, porque assim o Conseg (Conselho de Segurança) discute segurança com mais rigor. Além disso, a polícia está muito insatisfeita. O governo chegou a assistir ao confronto entre polícia civil e militar. Hoje, temos 114 dias de greve do Judiciário, não tem diálogo.

O crime organizado tomou conta dos presídios. Não tem crack dentro dos presídios, porque os traficantes não deixam entrar. É uma perda total da disciplina. Faltam 11 mil agentes penitenciários no sistema. Ficaram misturados os chefes do tráfico com o criminoso de pequeno delito e deu no que deu. Temos de separar os presos em quatro níveis: primários, reincidentes não perigosos, perigosos e chefes de crime organizado. Esses últimos têm de ir para os presídios de segurança máxima. Inclusive os federais têm 4 mil vagas e São Paulo não mandou um chefe do crime organizado para lá, não sei por quê.

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