Leonardo Augusto/Estadão
Instalações da cervejaria Backer, em Belo Horizonte. Empresa é investigada por morte suspeita e internação de pessoas que teriam consumido a cerveja Belorizontina Leonardo Augusto/Estadão

Mercado de cerveja artesanal prevê retração e pede veto de substância tóxica ao governo

Produtores também querem criar um selo de qualidade para o setor. Crise com a Belorizontina, ligada a suspeitas de intoxicação de consumidores, fez ministério interditar cervejaria Backer

João Prata, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - Diante da crise da Belorizontina, produtores de cerveja artesanal de Minas já preveem retração no mercado, mas se mobilizam para minimizar efeitos negativos da investigação e pretendem mostrar que o problema é um caso isolado. O grupo criou um comitê de crise na Federação das Indústrias do Estado e pediu ao governo federal para proibir o dietilenoglicol – achado nos tanques da fábrica investigada – na produção da bebida. Eles também querem criar um selo de qualidade para o setor.

A Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) enviou ofício ao Ministério da Agricultura com o pedido de veto ao composto químico, usado no processo de resfriamento na fabricação de bebidas. Em nota, a pasta confirmou o recebimento do pedido e disse que “iniciará os trâmites para discussão com órgão regulador”, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Segundo Carlo Lapolli, presidente da Abracerva, o uso dessa substância tóxica é raro.

“Solicitamos que todos os produtores fizessem revisão do processo e estamos procurando saber quais outras cervejarias usam esse produto, que não é comum. Normalmente, em mais de 90% das cervejarias, se utiliza uma composição de álcool etílico com água potável para refrigeração.”

Marco Falcone, vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Cerveja e Bebidas de Minas (Sindibebidas), dá a dimensão do prejuízo para o mercado.

“Haverá retração, sem dúvidas”, diz ele, lembrando que a Backer responde por cerca de metade da produção do Estado.

Conforme o Sindibebidas, Minas tem mais de 80 cervejarias artesanais, 55 filiadas e nenhuma delas usa o dietilenoglicol. O sindicato enviou carta aos associados para que se comprometam a nunca usar o composto.

“Crescemos cerca de 20% ao ano. Há grande rigor técnico. As pessoas às vezes podem confundir artesanal com caseiro. Mas para uma cervejaria ser registrada, há uma série de recursos que precisam ser aprovados.”

O Ministério da Agricultura determinou na segunda-feira, 13, o recolhimento e a suspensão da comercialização de todos os produtos da Backer fabricados entre outubro de 2019 e 13 de janeiro de 2020. A medida vale também para chopes e atinge, no total, 21 rótulos. A venda está proibida até que seja descartada a possibilidade de contaminação dos produtos. A Backer foi interditada pelo próprio ministério da Agricultura no último dia 10, sexta-feira.

Produtores pretendem lançar selo de qualidade; SP minimiza impacto

O comitê de crise deve lançar nas próximas semanas um selo de qualidade para o consumidor. Ele mostrará as cervejarias que aderiram a todas as normas técnicas.

“Por enquanto é iniciativa do coletivo de cervejarias. Mas pedimos ao ministério que respalde as normas que adotamos que vão de acordo com instrução normativa da Abracerva”, diz Falcone.

Presidente da Associação dos Cervejeiros Artesanais Paulistas (Acerva), Rodrigo Rosa acredita que a contaminação na Backer não deve causar grande impacto em São Paulo.

“Os produtores estão preocupados porque acham que devem respingar por aqui. Mas acho que os consumidores mais esclarecidos, que já consomem a cerveja artesanal, conseguem separar as coisas. Deve afetar o aumento do consumo, pois quem é leigo fica com o pé atrás”, afirmou.

A Acerva Paulista tem hoje cerca de 140 associados. Rodrigo também disse desconhecer quem faça uso da substância que causou a contaminação.

“O momento agora é de não julgar ninguém. Temos de aguardar o fim das investigações para saber de fato o que aconteceu e onde aconteceu a contaminação. Foi um problema muito específico.”

Rosa sugeriu uma nova medida para evitar que a tragédia se repita.

“Há um colorante que muda a cor da bebida se há substância tóxica. É algo que poderia ser cogitado. Mas concordo com a proibição desde já. A saúde tem de vir em primeiro lugar.”  

Encontrou algum erro? Entre em contato

Agora na mira da polícia, cerveja Belorizontina era aposta de fábrica investigada

A cerveja suspeita responde por pelo menos 60% da capacidade de produção da Backer. Suspeita de contaminação está sendo investigada pela polícia

Leonardo Augusto, especial para o Estado

15 de janeiro de 2020 | 05h00

BELO HORIZONTE - A cervejaria Backer apostou alto exatamente no rótulo que é responsável pelo seu maior revés. A marca Belorizontina, que conforme a Polícia Civil de Minas teve pelo menos três lotes contaminados, é o carro-chefe da Backer. A cerveja suspeita responde por pelo menos 60% da capacidade de produção da empresa, estimada em 1 milhão de litros por mês. A polícia apura o elo entre a contaminação da bebida e 17 casos de intoxicação no Estado. 

A Belorizontina é a grande responsável pelo salto da Backer nos últimos anos. A fábrica é hoje líder de vendas no setor artesanal no Estado. O rótulo foi criado no fim de 2017 em comemoração pelos 120 anos da fundação de Belo Horizonte. A produção inicial foi de 10 mil litros. Após pouco mais de dois anos, o meteoro Belorizontina, antes dos casos de contaminação pelo dietilenoglicol, atingia o volume aproximado de 600 mil litros, segundo estimativa do setor.

A empresa não revela dados de fabricação da Belorizontina. O preço da garrafa da cerveja nos supermercados da capital chega a R$ 5,28. Em meio às artesanais, não há nada parecido na rede varejista da cidade. O Reserva do Proprietário, outro rótulo da Backer, mais elaborado, por exemplo, custa R$ 80.

Mal começou 2020 e o cenário mudou radicalmente. O governo de Minas já registra 17 pessoas com suspeita de contaminação, incluindo um óbito. Outra morte suspeita, ainda fora do balanço da pasta, foi notificada no interior. O governo federal já fechou a fábrica e mandou recolher toda a produção desde outubro – a Backer pediu na Justiça prazo maior para essa coleta. 

'Não bebam nenhum lote da Belorizontina', afirma diretora de Marketing

Nesta terça, 14, a campanha às avessas veio da própria diretora de Marketing da empresa. “Não bebam a Belorizontina. Seja de que lote for”, disse Paula Lebbos, também sócia-proprietária. “Estou sem dormir. Muito triste, assustada com tudo isso. É preciso saber a verdade o mais rápido possível”, acrescentou ela, visivelmente abatida. 

Dos 70 tanques da Backer, 20 foram comprados em 2019. A polícia concentra investigações em um deles, de 18 mil litros, usado exclusivamente para a Belorizontina. O equipamento tem capacidade de brassagem – a mistura colocada no tanque que, após a maturação, vira cerveja – equivalente a 33 mil garrafas. A Backer afirma não usar o dietilenoglicol em seus processos.

Estimativas do setor apontam que a Backer concentrava de 50% a 60% do mercado mineiro de cervejas artesanais, o que também não poupava a empresa de críticas pela velocidade de produção. “A pressa neste setor é inversamente proporcional à qualidade da cerveja”, diz um concorrente. A avaliação dele é que a Backer, com sua escala, já não pode mais ser chamada de artesanal.

Ainda segundo estimativas do mercado local, a Backer teria contrato de fornecimento mensal de 60 mil caixas com 15 unidades de Belorizontina, por mês, para uma rede de supermercados de BH, o equivalente a aproximadamente 450 mil litros de cerveja a cada 30 dias. A rede é a mesma em que familiares de pessoas que passaram mal ao consumir o produto teriam adquirido a cerveja.  

Fábrica de MG tem 600 empregados

A empresa tem 600 funcionários. Em dezembro, um deles foi demitido, ameaçou o supervisor e o caso parou até na delegacia. A polícia diz não descartar a possibilidade de sabotagem nas linhas de investigação. 

O tamanho atual da equipe é bem diferente de quando o negócio, familiar, começou. Antes de se transformar em Backer, o estabelecimento fornecia chope de mesmo nome para uma casa de shows chamada Três Lobos, no início dos anos 2000. O local não existe mais. Em 2005, os atuais donos da empresa iniciaram a produção da cerveja Backer, uma das primeiras artesanais de Minas. Hoje Três Lobos é o nome de um dos 21 rótulos da fábrica – que devem rarear em bares e supermercados, ao menos enquanto durar a investigação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.